The Handmaid’s Tale: A distopia real

Por Renata Gomes

Entrou em exibição recentemente, na plataforma de vídeo online Hulu – uma espécie de Netflix disponível apenas nos mercados americano e japonês – a série The Handmaid’s Tale, adaptação para o audiovisual do livro homônimo da canadense Margaret Atwood, que, no Brasil, tem o nome de O Conto da Aia. Nas duas obras, os EUA sofrem um golpe e veem se instalar em seu território uma ditadura teocrática, hiperpatriarcal, na qual mulheres férteis são obrigadas a gerar filhos para os homens da elite, tornando-se propriedade do Estado.

O livro e a série são narrados em primeira pessoa pela aia do título, uma mulher que vivia sob padrões bastante liberais e, após o golpe, vê-se transformada em escrava reprodutiva na teocracia de Gilead. Junto a outras mulheres, tem seu passado apagado e vê até seu nome ser banido, sendo substituído por um que deixe claro a quem serve. Nossa protagonista passa a chamar-se Offred, do inglês of Fred, literalmente: de Fred, o comandante que divide sua posse com o Estado. Ela passa a viver sob a tutela desse homem e de sua esposa, tendo sua rotina controlada nos mais ínfimos detalhes, da forma como se veste à proibição de tomar contato com qualquer tipo de texto verbal. E, o mais chocante: uma vez por mês, em seu período fértil, participa, como todas as outras aias, da “cerimônia”: um estupro ritualizado, no qual o comandante tenta engravidá-la, enquanto ela é abraçada por sua esposa, que criará o eventual fruto a nascer desse ato.

Embora Margaret Atwood tenha deixado claro algumas vezes que não escreveu o livro a partir de nenhuma teoria feminista específica, seu foco central é uma inegável, contundente e incrivelmente atual crítica ao patriarcado, pelo viés feminista. Gilead, a república teocrática descrita no livro, escancara o sistema patriarcal em que Estado e Igreja se combinam para obter o controle dos corpos femininos, especialmente no que diz respeito a seu poder reprodutivo. Mulheres férteis são reduzidas a máquinas de reprodução, sem ter sequer o direito de manter sob sua guarda suas crias. Cumprida a missão de procriação numa família, a aia é passada adiante, para engravidar de outro comandante, por quem será sistemática e religiosamente estuprada.

Para além da alegoria do controle reprodutivo do corpo das mulheres pelo Estado e pela Igreja, contudo, o livro e a série trazem algumas questões menos óbvias, que constroem Gilead como uma distopia bem mais real do que seu tema central faria parecer – e está aí a força das duas obras.

Uma das questões chave para o feminismo e que atravessa basicamente todos os temas da série é a do consentimento como justificativa para a opressão das mulheres. No livro e na série, a aia protagonista-narradora mente – para si e para outros personagens – afirmando que “ninguém a obriga” a participar da “cerimônia”. Mente para si, numa aparente tentativa – literalmente aprendida na escola formadora de aias de Gilead – de se culpar por aquilo de que é vítima e para os outros, pois, na situação em que se encontra, dizer a verdade – da qual ela tampouco está mais certa, vivendo há tanto tempo sob tamanha manipulação emocional – implicaria em sua morte. Noutro momento, ela é “contrabandeada” por seu comandante para um bordel, no qual vivem mulheres que igualmente “consentem” em estar ali. A maioria, mulheres que, antes, ou já eram prostitutas ou exerciam profissões de intelectualidade e poder e que acham que se prostituir ainda é melhor do que ser aia. Como explica uma das prostitutas do bordel na série, estoicamente, tentando convencer a si mesma e a sua interlocutora de que a situação em que está não é tão ruim: “temos alguns bons anos antes de nossas xoxotas se acabarem, temos bebida e drogas à vontade, a comida não é ruim e só trabalhamos à noite”. Ou seja: as mulheres do bordel trocam o estupro com fins reprodutivos pelo estupro como “trabalho sexual”, que este lhes compra algumas horas do dia de “liberdade”. Contudo, a mesma prostituta termina a cena dizendo que não existe saída daquele mundo, nem pra ela, nem para a amiga aia. A liberdade, percebemos, é apenas ilusória.

Ambas as situações são alegorias perfeitas dos limites do consentimento nas duas formas de exploração sexual da mulher pelo patriarcado, ambas devastadoras para as suas vítimas: a servidão reprodutiva e a servidão na prostituição. Uma legal e moral, socialmente consensual; outra, imoral e, em vários lugares, ilegal, mas socialmente acobertada e até defendida por liberais e parte da esquerda. Por trás de uma, a engrenagem patriarcal-capitalista, que faz da mulher “a proletária do proletário”; de outra, o consenso tácito de que os homens têm “vontades naturais” a serem satisfeitos, como diz, sem nenhum remorso, o Comandante.

Enquanto o universo liberal questiona a servidão reprodutiva, mas leva ao pé da letra o discurso da prostituta do bordel de Gilead – de que a opção pela prostituição pode constituir algum grau de “liberdade” – um outro universo feminista tenta desconstruir a naturalização da exploração sexual nas duas instâncias, demonstrando a inexistência de consentimento em ambas. Na primeira, a servidão reprodutiva, entendendo que “o pessoal é político”, ou seja, que as relações sociais que acontecem no âmbito doméstico podem e devem pertencer ao debate público, pois a sociedade é construída também a partir do alicerce dessas relações privadas. Dessa forma, é preciso debater o consentimento da mulher em sua servidão doméstica, entendendo que as relações de poder se constituem verticalmente, a partir de consensos morais que mantêm a mulher em situação subalterna. É preciso, portanto, politizar e desnaturalizar o entendimento de que “em briga de marido e mulher, ninguém mete a colher”, iluminando, assim, a impotência decisória da mulher no âmbito doméstico. Da segunda, a servidão na prostituição, a partir da desconstrução do sexo como um direito que franquearia aos homens o livre e legítimo acesso aos corpos das mulheres, as quais, num sistema patriarcal (e capitalista), estariam exercendo escolha e liberdade (sexual e de empreendimento) ao escolher e “consentir” vender seu corpo para a satisfação sexual das “vontades naturais” tomadas como incontornáveis. Em ambos contextos, o feminismo segue mostrando que as mulheres não têm pleno poder de consentimento, posto que não têm pleno poder de negação. E, numa relação em que uma parte não pode consentir, há exploração.

A força maior do Conto da Aia, de forma diferente, mas igualmente potente no livro e na série, é, portanto, a maneira como atravessa esses temas por toda sua narrativa, camuflando-o atrás das alegorias distópicas mais claras, requerendo de seus espectadores olhares mais generosos e sofisticados. Ao contrário do tema central, uma alegoria que, apesar de extrapolada da realidade, ainda não é fato ao pé da letra, os temas transversais são completamente reais e acontecem, neste momento, em vários lugares do mundo, inclusive nos EUA, cenário do filme, no Canadá da autora e neste Brasil realmente varonil que habitamos. Em pelo século XXI, mulheres são traficadas no mundo inteiro para servir como escravas sexuais, seus corpos são regulados de perto pelo Estado e/ou Igreja – como no Brasil, cujo DF acaba de aprovar lei que obriga sobreviventes de estupro, grávidas de seus algozes, a serem apresentadas a modelos de fetos, para que possam “refletir” e desistir do aborto num dos poucos casos a que têm direito legal – homens que ganham a vida pregando o puritanismo são descobertos explorando mulheres sexualmente, por vezes das mais perversas maneiras e a prostituição é vendida (literalmente) como liberdade, mas, na realidade, para a vasta maioria de suas vítimas, ela é sinônimo de prisão, tortura, estupro, violência, dor…

Nestes tempos em que o discurso de ódio – misógino, homofóbico, racista, xenófobo… – é dominante em todas as mídias, em que o fascismo parece rastejar ao nosso redor – em nosso vizinho ou no presidente da maior potência econômica e bélica do mundo – em que somos instados a dialogar com as formas mais primitivas de intolerância, como se fossem mera diferença de opinião, é preciso celebrar a adaptação d’O Conto da Aia. Em livro, como em série audiovisual, este talvez seja uma dos mais contundentes ficções políticas da atualidade, não apelas pela distopia patriarcal que descreve, mas pela maneira de ancorá-la num cenário mais amplo de falência democrática. Diz o comandante, com o cinismo dos poderosos, que “melhor nunca significa melhor para todos” e foi com base nisso que Gilead foi imposta e construída. O ataque aos direitos humanos, aponta-nos Atwood, é não apenas sintoma, mas também elemento central da falência democrática. O Conto da Aia nos lembra, portanto, que melhor ou é para todos ou, mais cedo ou mais tarde, não será pra ninguém. Me parece um bom sentimento para animar a luta.

 

1 Comentário

  1. Ótimo texto, Renata! Parabéns! Acho que vc conseguiu explicar muito bem o ponto principal: a história central é transpassada por variadas temáticas e é isso que a torna a série/livro tão forte, impactante…

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