Sobre Marco Aurélio Garcia

Marco Aurélio Garcia Foto: Alan Marques Folhapress

Alexandre Fortes

No último dia 20, a esquerda brasileira e mundial perdeu uma de suas mentes mais inteligentes, e um dos seus militantes mais charmosos e encantadores. Um homem que combinava um refinado senso do bom viver com uma entrega apaixonada à causa da libertação humana de todas as formas de opressão e exploração.

Quando cheguei à Unicamp, em 1990, soube que todo mundo estava preocupado com a saúde do Marco Aurélio Garcia, cujo imenso coração já havia dado uns sustos. No ano seguinte, num trágico acidente, Marco Aurélio perdeu sua grande companheira, nossa mestra feminista e socialista Elizabeth Souza Lobo. No velório da Beth, ele me deu um abraço apertado, suspirou, e disse: “- A tua professora…”. Essa frase ecoa na minha cabeça até hoje, porque convivi apenas um ano com ela, mas foi uma experiência de aprendizado que mudou minha vida.

Agora, longe do Brasil, recebo a notícia da partida do MAG, e a única coisa que consigo pensar é: “- O meu professor…” Nunca fiz uma disciplina com ele. Tivemos umas duas ou três reuniões de orientação, acompanhadas pela minha “assistente júnior”, Maia Gonçalves Fortes, antes que a política o convocasse de vez para missões mais urgentes e eu fosse adotado pelo Michael Hall, como tantos outros.

A expectativa que eu tinha, quando fui de Porto Alegre a Campinas, de um contato cotidiano com o cara que mais conhecia sobre a história da esquerda no Brasil, nunca se concretizou. Mas tive a oportunidade de conviver com Marco Aurélio nas décadas seguintes, de realizar com ele diversos projetos políticos e intelectuais, de tê-lo como membro “extra” da minha banca, assim como de acompanhar de maneira constante a sua atuação, os indefectíveis comentários sarcásticos, as brilhantes entrevistas e declarações.

Veterano de inúmeras batalhas da esquerda latino-americana e mundial desde o início dos anos 1960, MAG sobreviveu para ter a oportunidade de ser um dos artífices de um projeto político de redução das desigualdades sociais, aprofundamento da democracia e de protagonismo do Brasil na luta por uma ordem internacional mais justa e equilibrada. Tornou-se personagem de primeira linha nas relações internacionais, particularmente no cenário latino-americano.

Lamento profundamente que não possamos mais contar com sua imensa sabedoria e seu inesgotável bom-humor num momento em que, como observou Benjamin sobre o Angelus Novus, de Klee, somos arrastados para trás e só vemos as ruínas se acumularem aos nossos pés.

Será uma imensa responsabilidade zelar pelo legado intelectual e político do Marco Aurélio e extrair dele as lições para enfrentar os desafios de um cenário tão desolador.

* Texto publicado, em sua versão original, na página pessoal de Alexandre Fortes no Facebook e, também, no site da Fundação Perseu Abramo.

Alexandre Fortes é Doutor em História (UNICAMP) com estudos de Pós-Doutorado na Duke University (EUA). Professor de História Contemporânea e Pró-Reitor de Pesquisa e Pós-Graduação da UFRRJ.

 

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