Um legado a ser retomado

Dilma Rousseff, Jacob Zuma e Manmohan Singh

Suhayla Khalil

“Se a América Latina é o cenário indispensável da nossa política externa, a África é a tela onde ela se projeta, anunciando já algumas das formas que ela terá que assumir no futuro… Mais do que a política externa dos anos 1970, é a do ano 2000 que estamos, de certo modo, traçando com as iniciativas de hoje.” Palavras do embaixador Azeredo da Silveira, ministro das relações exteriores do governo Geisel, grande impulsionador das relações Sul-Sul. Suas palavras não poderiam ser mais proféticas.

Depois de um longo período em segundo plano ou mesmo esquecida, a cooperação Sul-Sul foi retomada com a chegada ao poder do Partido dos Trabalhadores. Marco Aurélio Garcia, então nomeado assessor para assuntos internacionais da Presidência da República, teve papel importante na formulação de tal política ao lado do ministro Celso Amorim. Costumava dizer que o Brasil não tinha a ganhar com uma “inserção solitária” no mundo e que a política externa deveria ser um elemento essencial do projeto de desenvolvimento do país e não somente um instrumento da projeção dos interesses nacionais no cenário global.

Defensor da América Latina, Garcia priorizou as relações com os países vizinhos e o projeto de construção da integração regional. A Unasul e a Comunidade de Estados Latino-Americanos e Caribenhos (CELAC) são expressões dessa atuação. Defendia que a região tinha enorme potencial por ser uma zona livre de guerras convencionais e devido a fatores como a riqueza de recursos naturais e a existência de um parque industrial de porte, ainda que concentrado em alguns países. No entanto, compreendia que permaneciam obstáculos regionais a serem superados como a profunda desigualdade social e a disparidade econômica entre os países. Caberia ao projeto de integração regional lidar também com essas questões, e não apenas com a dimensão comercial, de forma a ser bem-sucedido.

Vislumbrava em Índia e China, assim como no ressurgimento da Rússia, a emergência de um novo mundo. Entendia que a África era o último bastião. Não à toa, já no primeiro ano de governo Lula, surgiu o Fórum de Diálogo Índia-Brasil-África do Sul (IBAS), e, em 2009, os BRICS. Arranjos estes que trouxeram não apenas cooperação econômica, mas promoveram também um posicionamento anti-hegemônico e impulsionaram o Brasil em fóruns multilaterais.

Marco Aurélio Garcia e a política externa desse período deixam um importante legado para o país. Uma visão mais ampla de mundo, que apostou na diversificação de parceiros e na multipolaridade, assim como alçou o Brasil a um lugar de destaque no plano internacional. Um legado a ser retomado, tal qual o de Azeredo da Silveira. Oxalá não demore tanto.

Suhayla Khalil é Doutora em Relações Internacionais (USP) e Professora da Universidade Paulista e da Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo.

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