Monumento a um País em Ruínas

Garrafa de vinho dentro da pira da “chama eterna” – Correio Braziliense, 28/11/2016.

Adriano de Freixo

A memória dos construtores da pátria permanece viva na chama eterna da liberdade.
( José Sarney. Inscrição gravada em mármore ao lado da torre com a pira da “chama eterna”. Panteão da Pátria, Brasília)

Em “Comunidades Imaginadas”, sua obra mais conhecida, o historiador britânico Benedict Anderson afirma que não há símbolo mais impressionante da moderna cultura do nacionalismo do que os cenotáfios e os Monumentos aos Soldados Desconhecidos, pois, mesmo não sendo mausoléus que abrigam restos mortais, eles estariam “saturados de fantasmagóricas imaginações nacionais”.

Sendo o moderno Estado-nação uma “comunidade política imaginada” – já que nunca os seus membros conhecerão ou ouvirão falar de todos os seus compatriotas “embora na mente de cada um esteja viva a imagem de sua comunhão”-, tais monumentos representam, no plano simbólico, o pertencimento a tal comunidade e estão indelevelmente ligados ao processo de construção da consciência nacional.

Foi esta ideia que norteou a construção do Panteão da Pátria e da Democracia, em Brasília, que apesar do nome não é de fato um panteão, visto que ali não estão os despojos de nenhum dos que são nele homenageados. Nem mesmo os de Tancredo Neves, o principal dos mortos ilustres celebrados nesse espaço de memória.  Assim, esse monumento é, na verdade, um cenotáfio, onde se rememoram os “heróis da pátria” e os “construtores da nacionalidade”, cujos nomes estão gravados no “Livro de Aço” depositado no terceiro pavimento do prédio idealizado por Oscar Niemeyer.

Projetado e construído sob o impacto da morte de Tancredo Neves – que seria o primeiro presidente civil após 21 anos de ditadura -, o Panteão foi inaugurado em 1986 por José Sarney, que assumira a presidência no lugar do velho político mineiro. Ao seu lado, em uma torre erguida em diagonal, fica a “chama eterna”, símbolo da liberdade e da democracia que, a princípio, deveria permanecer para sempre acesa. No entanto, desde novembro do ano passado, ela se encontra apagada, por falta de manutenção e de verbas.

Simbolicamente, em sentido mais estrito, pode-se fazer a associação óbvia entre o apagar da “chama da democracia” e o “soft coup” que, pouco mais de dois meses antes, havia retirado da presidência da república sua ocupante legitimamente eleita, em nome de interesses escusos.  Num sentido mais lato, essa analogia pode ser estendida, de forma não tão óbvia, à falência da ideia de construção de um projeto nacional autônomo, que esteve presente em momentos distintos da nossa história republicana, em maior ou menor grau.

Tal projeto, sempre vinculado à ideia do desenvolvimento econômico, perpassou governos de orientação conservadora – ou “modernizadora-conservadora” – e progressistas, sendo que estes últimos também incluíam em seu escopo alguma preocupação com o combate às desigualdades e com a aplicação de políticas distributivistas, bem como com a ampliação dos mecanismos de participação política, sem romper, no entanto, com os limites da democracia formal.

Sem entrar no mérito do que foi o “Welfare State” ou dos motivos que levaram à sua crise, é indiscutível que, com o fracasso do projeto socialista de viés internacionalista, o Estado nacional – e as forças sociais nele representadas – funcionou ao longo do século XX como o principal responsável pela implementação de mecanismos para diminuição das desigualdades sociais e para ampliação de direitos. Isto ocorreu mesmo em regiões periféricas do planeta onde, devido a condicionamentos externos e internos, a margem de manobra para a realização de políticas sociais pelos Estados é mais restrita. No Brasil, tais preocupações estiveram claramente presentes, em escalas distintas, nos governos de João Goulart e de Luís Inácio Lula da Silva, por exemplo.

O que se passa hoje no país não é somente a interrupção do processo de construção e de ampliação da democracia – já que para a maior parte da população o “Estado de Direito” nunca existiu de fato -, mas também o esmagamento de certa ideia de Brasil, que vem sendo formulada, reformulada e ressignificada desde, pelo menos, a década de 30 do século passado. Sem ignorar seus limites e contradições, não se pode negar que tal projeto – principalmente em sua versão progressista e democrática – nos deu o norte nas últimas décadas e que a alternativa que se apresenta a ele, e que está a nos atropelar como um trator, é a política de terra arrasada e – por que não dizer? – de matiz neocolonial dos velhos e novos liberalismos.

Desta forma, o cenotáfio de Brasília – que se encontra fechado à visitação pública, com ares de abandono (expresso pela sujeira e pela grama malcuidada em seu entorno e pelas pichações em seus mármores) e com a “chama da liberdade e da democracia” apagada – talvez seja a mais perfeita tradução do Brasil de 2017: um panteão que não é panteão, construído para render loas a uma democracia que nunca foi efetivamente democracia, em um Estado-nação da periferia que nunca se realizou de fato e que teve – mais uma vez – a sua “construção interrompida”,  para usar a expressão de Celso Furtado. E, pensando bem, boa parte dos “heróis da pátria” ali homenageados também não foram tão heróis assim…

Seja o primeiro a comentar

Faça um comentário

Seu e-mail não será divulgado.


*