De Volta à Estaca Zero

Rafael R. Ioris

A erosão da democracia liberal vem avançando a passos largos ao redor do mundo. A eleição de Trump nos EUA e a de Modi na Índia, assim como o fortalecimento de Erdogan na Turquia, de Putin na Rússia e a recente decisão pela saída do Reino Unido da União Europeia são indicações claras de um processo de recrudescimento de uma visão antiliberal, autoritária e nacionalista em nível global.

Embora na América Latina essa tendência apresente complicadores próprios – já que a região, de modo anacrônico, vivencia uma retomada do finado e nefasto projeto neoliberal dos anos 1990, contraditoriamente dentro de um contexto mais amplo de crescente protecionismo, conforme mencionado acima – temos também aqui, em especial no Brasil, a erosão de muito dos valores básicos da convivência e do funcionamento da democracia.

De modo concreto, dentro da trágica revalorização de uma ética egocentrada e de viés materialista que estamos vivendo, vemos um crescente desprezo pelos aparelhos do Estado, assim como pela opinião pública em geral, da pauta dos direitos humanos e inclusão social, tão necessária em uma sociedade hierárquica como a nossa. Essa agenda de eventuais e limitados avanços tem, por sua vez, sido rápida e perigosamente substituída por uma lógica salvacionista, portanto paternalista e irresponsável no nível pessoal, atribuidora de permissões de comportamento excessivo ao salvador de plantão a que tem sido atribuído o papel de redenção nacional, ainda que agindo, por mais das vezes, de modo despótico.

Se na década de 1990 a agenda de direitos individuais liberais, ainda que definida excessivamente por um viés mercadológico, representava o novo, e assim, forçava-nos a pensar um novo projeto de país; percebemos hoje, com muita preocupação, diria eu, que a normatividade das ditas classes médias tem sido largamente definida por um conservadorismo de viés Bonapartista. Da mesma forma, naquele período, e ainda que tivéssemos distintas visões de como fazê-lo, começávamos finalmente a ter uma séria reflexão sobre como nos afirmarmos como nação, dentro de um mundo cada vez mais interconectado. Esse processo, que certamente avançou de modo claro e contundente nos anos seguintes, tem sido aceleradamente pela aceitação resignada de uma posição colonial rediviva.

Assim, se antes discordávamos do tamanho e das distintas visões sobre o papel do Estado, agora temos o Estado patrimonial (da defesa do meu quinhão a custo da coletividade) consagrado como o único caminho possível (vide o caso dos salários dos juízes em meio à maior recessão da história) e os necessários serviços públicos, mesmo os que historicamente beneficiavam de maneira desproporcional as classes médias (como universidades) sendo eliminados. Por fim, se antes buscávamos avançar na promoção de uma sociedade socialmente mais justa, embora sem um consenso sobre os meios, agora temos a valorização da lógica do cada um por si.

Com essa visão de sociedade, fica claro, a priori, quem ganha e quem perde. Esse renovado darwinismo social já demonstrou seus efeitos, aqui e ao redor do mundo. Infelizmente, muitos dos que mais têm a perder são os que têm servido como massa de sustentação dessa deletéria lógica social, como é o caso dos principais apoiadores de Trump nos EUA. Rejeitar essa visão de mundo requer que recomecemos o trabalho de base, lento e árduo, de outros tempos. Contudo, dada a gravidade do momento atual, agora essa tarefa terá que ser feita com ainda mais afinco e agilidade, aqui e em outras partes do mundo. Esperemos que a criação de redes globais de apoio e troca de experiência entres os ainda interessados em melhorar as coisas possa nos ajudar nesse trabalho.

 

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