Estado confessional avança: Prefeitura do Rio quer saber a crença de cada Guarda Municipal

Foto: Fernando Frazão / Jornal Grande Bahia

Marcos Kalil


Dias atrás, uma colega jornalista norte-americana esteve em uma coletiva de imprensa com o prefeito do Rio de Janeiro, Marcelo Crivella. Ela vem cobrindo, desde 2014, o avanço da religião sobre a vida pública no Brasil. Durante o evento, o alcaide teria entoado diversas frases curiosas, tanto abertamente, quanto de forma restrita, no contato direto que tiveram. Segundo ela, em relato particular, o chefe do Executivo municipal não acredita haver intolerância religiosa no município que administra. Além disso, ele acharia exagerada a preocupação com as constantes manifestações verbais de sua fé, as alusões a Deus e tudo mais, no exercício do cargo público. Neste momento, inclusive, teria feito uma brincadeira com o fato de, nos EUA, terra natal da repórter, o presidente Trump ter um discurso parecido, o que o autorizaria a fazê-lo por aqui também. Por fim, Crivella teria indicado o caminho pelo qual o Rio deve seguir para alcançar a prosperidade: replicar o modelo de Israel, que seria, de acordo com ele, um exemplo de sucesso em terra infértil contra tudo e contra todos.

A eleição do bispo da Igreja Universal não é um ponto de inflexão em uma ampla trajetória de laicidade e republicanismo no Brasil. Em verdade, a bancada evangélica no Congresso, eleito em 2014, amonta 87 parlamentares (85 deputados e dois senadores), conforme dados do DIAP, e a Frente Parlamentar Evangélica, 202 signatários (198 deputados e quatro senadores). O ex-presidente da Câmara dos Deputados, coprotagonista do impeachment da presidenta Dilma Rousseff e evangélico inveterado, Eduardo Cunha, demonstrou o potencial do capital político neopentecostal, aliado às práticas fisiológicas das instituições do país. Contudo, a administração da cidade simbolicamente mais importante do Brasil por um expoente da Igreja Universal tem se mostrado não só um marco histórico de um movimento perene, como também, na prática, uma afronta de fato aos estratos ideologicamente opostos aos dogmas neopentecostais.

A mais recente demonstração de desapreço aos valores laicos do Estado irrompeu nas redes sociais e na imprensa de terça para quarta. O Dia publicou nota trazendo à tona um questionário aplicado pela Prefeitura aos guardas municipais com o objetivo imediato de mapear a religião de cada um deles. Um suposto exemplar do documento circulou no Facebook. Segundo informações apuradas por esta coluna, em contato com funcionários da Guarda Municipal, os superiores hierárquicos dos guardas entregavam o conjunto de perguntas, em que o servidor precisa se identificar pela matrícula e assinatura, para, então, devolvê-lo ao chefe. O clima de constrangimento teria tomado a corporação. Uma parcela daqueles que não se identificam como cristãos estaria marcando a opção “católico”, como forma de salvaguarda.

O propósito oficial do censo religioso seria viabilizar o projeto de capelania da Guarda, o que, em tempos de crise, coloca-se de forma ainda mais impertinente. A pressão se avolumou ao longo do dia e a Prefeitura chegou a voltar atrás do requisito de identificação, mas o estrago já havia sido feito com a participação da grande maioria dos guardas e a inequívoca nova prova de que a visão de Estado de Crivella se incompatibiliza com os ideais de laicidade, previstos na Constituição de 1988. Os ataques ao carnaval, a tentativa de controle de eventos privados e públicos, afetando festas populares e terreiros, entre outros episódios, caminham no sentido de nos assegurar que, por trás do lema de “cuidar das pessoas”, está em curso um projeto no esteio ideológico neopentecostal.

O Estado confessional avança. A quantidade de cargos públicos – subsecretários, superintendentes etc -, ocupados por neopentecostais ostensivos em sua pregação de fé, salta aos olhos de quem convive na estrutura institucional da cidade e do Estado do Rio de Janeiro. Em recente capacitação de agentes religiosos que atuam em presídios, um dos representantes da Secretaria de Estado de Administração Penitenciária (SEAP) praticamente conduziu um culto em evento que deveria estabelecer os limites de laicidade da atuação daqueles profissionais. Afirmou ainda que “fez as igrejas nos presídios como presente” para os participantes de maioria evangélica, se referindo aos dois templos construídos em prisões fluminenses recentemente.

Em âmbito nacional, o ministro da Fazenda e presidenciável Henrique Meirelles esteve em junho no aniversário de 106 anos da Assembleia de Deus no Pará. No mês seguinte, marcou presença na Convenção Geral das Assembleias de Deus no Brasil, em São Paulo, que reuniu 4 mil pastores, líderes estes de 20 milhões de fiéis. O beija-mão do baluarte do mercado financeiro diante dos evangélicos sinaliza que o desenho de uma teocracia brasileira passa inexoravelmente pela aliança entre os extremos conservadorismos político e econômico daqui.

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