Nos Estados Unidos, eles são muito melhores do que nós

Mariana Kalil

Nos Estados Unidos, eles são muito melhores do que nós em explicitar o racismo. Aqui, mesmo os que vociferam contra o politicamente correto hesitam em odiar negros em voz alta. Lá, na tentativa de desviar o debate das acusações de traição à pátria, a administração Trump abriu batalha contra ações afirmativas, com apoio de trabalhadores brancos pobres, o coração de seu eleitorado, que se dizem vítimas de preconceito reverso.

Após a eleição de Trump, estudos que buscam compreender a história da luta de classes nos Estados Unidos ganharam as prateleiras das principais livrarias. A demonização do marxismo parece ter cobrado sua conta.

Como nos Estados Unidos eles são muito melhores do que nós em explicitar o racismo, um dos livros mais comentados é o de Nancy Isenberg: 460 páginas que exploram os 400 anos da história silenciada da luta de classes na América que têm como título “White Trash”, “O Lixo Branco”. Nancy oferece, por exemplo, um catálogo com algumas expressões utilizadas por americanos ricos para denegrir (!) americanos pobres. Estamos relativamente familiarizados com o termo “loser”, perdedor, mas, claro, o soft power americano, em geral, não nos deixaria saber de termos como os “offscourings” da sociedade, algo como “o chorume”, ou “useless lubbers”, “retardados inúteis”. Na língua inglesa, expressões como “hobos” ou “mendigos”, ao invés de “sem-teto”, “cracudos”, ao invés de “usuários de crack”, são tão pejorativas quanto as anteriores.

Como nos Estados Unidos eles são muito melhores do que nós em explicitar o preconceito, Cleveland, por exemplo, foi por muito tempo apelidada de “The Mistake by the Lake” ou “A Bosta na Encosta”, em referência ao cheiro ruim da involução metropolitana decorrente da favelização das margens do rio Cuyahoga seguindo a desindustrialização da região – expressão, aliás, consagrada pelo uso das elites da costa leste, a qual os aquinhoados de Cleveland costumavam rebater dizendo: “pelo menos não somos Detroit”.

O debate público nos Estados Unidos, seja na CNN ou na Fox News, costuma girar em torno da garantia de liberdades, incluindo a de expressão, em face da luta por direitos. Assim, sobretudo no seio do conservadorismo, busca-se afirmar a liberdade de expressão em detrimento da construção de uma cultura que valorize a inclusão social. Justiça Social, aliás, é expressão significativamente mais pejorativa do que qualquer das citadas no parágrafo anterior, entre conservadores e liberais (em geral). Uma sociedade que jamais quis entender o marxismo e que se reconhece como o berço do êxito máximo do liberalismo político e econômico incorporou a luta de mulheres e de negros por direitos civis e políticos, com soluções de compromisso como o colégio eleitoral, mas cobra preço alto daqueles que defendem direitos econômicos e sociais.

As ações afirmativas, ilustrações da luta por direitos econômicos e sociais, da batalha por justiça social, são, dessa forma, espantalho ideal para um sistema político-eleitoral que, ao, de fato, exemplificar o maior sucesso do liberalismo político e econômico na história do mundo, é o retrato de uma democracia tão plena que oligárquica. Trump foi eleito ao erguer este espantalho, que ganha várias fantasias -já foi mexicano, já foi chinês, já foi mulher e agora é negro. Enquanto seu genro fora aceito em Harvard por meio de doações do papai e de gestões políticas de congressistas, em que pese o curriculum incompatível do rapaz, ações afirmativas são as culpadas pela manutenção de milhões de brancos na pobreza. Afinal, Jared é somente um. Ações afirmativas são direitos coletivos.

Ora, se, individualmente, há possibilidade de se obter privilégios, ótimo, nada mais há do que o resultado admirável do sucesso de uma família trabalhadora e influente. Que esta realidade seja, na prática, tão reiterada que gere verdadeiras castas não vem ao caso. Já que não é política de Estado que vise a direitos e garantias coletivos, econômicos e sociais, o caráter oligárquico da democracia não vem ao caso.

Nos Estados Unidos, eles são muito melhores do que nós em, sem culpa alguma, explicitar o rechaço a políticas públicas de inclusão social, sobretudo às que supostamente ferem a meritocracia, a competitividade, mecanismos considerados basilares para o funcionamento eficaz da sociedade liberal. Assim, que táxis não parem para pessoas negras, que as opiniões – e os votos – de pessoas negras não tenham o mesmo peso daquelas de brancos, que a sociedade trate espontaneamente o negro como merecedor de posições subalternas, se é que de alguma posição, não importa. O que não pode haver é o Estado sendo usado para institucionalizar, na forma da lei, políticas públicas em prol da diminuição da desigualdade. Argumenta-se com base no preconceito reverso.

Realmente, como mulher branca, preciso confirmar que sofro inúmeros preconceitos, mas preciso reconhecer que a sociedade não repara de forma espontânea o preconceito contra negros, enquanto eu, como mulher branca, tenho a reparação espontânea pela via de diversos privilégios, que, no caso, incluem, por exemplo, sempre ter táxis à minha disposição, ser vista como intrinsecamente limpa em entrevistas de emprego, ser tratada como moradora em meu próprio prédio.

Nos Estados Unidos, eles são muito melhores do que nós em explicitar tudo isso, mas eles estão muito piores do que nós na possibilidade de reconhecerem o espantalho. Na luta da classe pobre por emprego, o negro pobre é aliado do branco pobre. Quando o branco enfraquece o negro, ele enfraquece a própria luta. Ser contra ações afirmativas significa fortalecer o caráter oligárquico da democracia, significa focar no espantalho, enquanto o Congresso Nacional se vende para um Presidente da República não eleito e rechaçado por quase 100% da população.

Numa sociedade capitalista pós-moderna de brancos privilegiados, a dinâmica da insatisfação crônica decorre da sensação de que o destino manifesto jamais será cumprido. Quando se adicionam cotas, brancos podem sentir-se mais distantes do sucesso, já que privilégios estão sendo institucionalmente auferidos a outros. Quanto ao branco pobre, o risco de se focar no espantalho é ainda maior: sua insatisfação crônica não é fútil. É importante notar, contudo, que ser contra cotas é mirar no algoz errado. O inimigo não é o vulnerável, o marginalizado, mas aquele que sequer precisa de nova institucionalização para ter privilégios. O inimigo é aquele que, aos sete anos, tem 7 milhões de reais no banco. O inimigo é aquele cujo sobrenome o livra de acusações de crimes confessos, gravados, filmados. O inimigo é aquele que é festejado na capa da revista semanal, sem que sequer tenha completado um único mandato ou que seja aprovável para muito além de seu eleitorado. O inimigo é aquele oferecido pela mídia tradicional como oráculo, aquele sociólogo, o bastião do bom senso. O inimigo é aquele que ergue o espantalho, aquele que te deixa à vontade para ser racista, machista e homofóbico.

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