A Ilusão de 2018

Rafael Ioris

Desde que o furor golpista tomou conta do país, temos vividos tempos trágicos de retrocesso profundo no projeto de convivência política democrática. Iniciado poucas semanas após o segundo turno das eleições presidenciais de 2014, quando Aécio Neves, oligarca político do PSDB mineiro, se recusou a reconhecer sua derrota no pleito recém-terminado, o processo de deterioração do ordenamento legal se aprofundou rapidamente quando um conluio midiático-judicial reorganizou a chamada opinião pública – realidade de limitadíssima representatividade em um país com tão alta concentração midiática – com fins a atender a agenda moralista de plantão que, ao fim e ao cabo, colocaria no poder central alguns dos maiores representantes das nefastas oligarquias regionais; instituindo assim um dos governos mais corruptos da história.

Embora ainda haja bastante coisa a ser mais bem compreendida sobre esses fatídicos eventos, é fato que muitos dos que serviram, por ingenuidade ou convicção, como massa de manobra para os articuladores do golpe hoje se encontram, embora muitas vezes em silêncio, arrependidos do resultado final de suas ações. Desiludidos com os Maias, Fufucas, Jucás, Blaggis, Moreiras Francos, Padilhas, Dantas, e sobretudo, os Temers do atual cenário nacional, muitos dos patriotas e paneleiros de então, tentam hoje encontrar alguma racionalidade para justificar suas ações na postulação de que as ditas investigações estariam desvelando a realidade da corrupção. Da mesma forma, parecem buscam ânimo para prosseguir na crença de que as próximas eleições poderiam trazer algo novo no front político capaz de oferecer uma quase mágica redenção do atual estado de coisas.

Alijadas à força não só da chefia do governo federal, mas especialmente colocadas à margem das narrativas políticas em curso, onde passaram a assumir o papel de bode expiatório de todos os males do país, muitas das ditas esquerdas parecem hoje pecar do mesmo espontaneísmo ou ilusão. Arraigadas a um sentimento salvacionista, certamente compreensível, tanto por razões históricas tanto de longa como de curta duração, mas não obstante ingênuo, acreditam que poderão consertar as coisas quando conseguirem novamente assumir as rédeas da nação que, muitos, ainda creem terem, de fato, tido nas mãos.

Embora o caráter democrático e popular dos dois lados não possa ser, modo algum, equiparado, é certo que ambos se apegam a uma lógica personalista e centralizadora. Enquanto os primeiros abrem espaço para o salvacionismo do dito novo, os segundos se firmam a um salvacionismo do mesmo. Deixam ambos, pois, de enxergar, pelo menos em parte, a dramaticidade e profundidade dos eventos vivenciados nos últimos anos no Brasil.

Travestida de força de renovação, o que tivemos foi um amplo movimento de expressão, e mesmo exaltação dos nossos maiores ranços oligárquicos, racistas, patrimonialistas e, certamente, hipócritas que, em grande parte, nos definem como uma das sociedades mais desiguais do mundo.

Esse afloramento, não tão inconsciente, dos males que pretendíamos talvez esquecer sem que antes os tivéssemos resolvido é tarefa que um ou mais ciclos eleitorais não poderão atender, não obstante o valor intrínseco da institucionalidade democrática. O desafio se avoluma com a acelerada erosão de uma, supostamente presente até pouco tempo, pauta mínima de direitos humanos e avanços sociais. Passamos a acreditar, muitos de nós, cada dia mais na necessidade de medidas de exceção como instrumento regular de segurança pública. Defendemos a suspensão dos direitos civis básicos na condução do justicialismo de plantão. Nos interessamos em malabarismos institucionais de limitação da expressão popular como forma de garantir que os desígnios inexoráveis do deus mercado sejam atendido. Perdemos, assim, todos a capacidade de viver, de fato, em uma democracia.

Como devemos fazer com os fantasmas da ditadura que nunca quisemos enfrentar e que, portanto, ainda nos atormentam, ou exorcizamos publicamente o processo que nos trouxe onde estamos, ou teremos consagrado novos demônios em nosso futuro.

Rafael R. Ioris é Doutor em História Latino-Americana (Emory University), Professor de História Latino-Americana e Política Internacional Comparada na Universidade de Denver e colunista do “Mundo em Transe”.

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