Especial: Um ano do golpe

Mundo em Transe apresenta

Há exatamente um ano consumava-se o soft coup iniciado alguns meses antes, quando o então presidente da Câmara de Deputados, Eduardo Cunha, acolheu o pedido de impeachment contra a presidenta Dilma Rousseff apresentado pelos juristas Hélio Bicudo, Janaína Paschoal e Miguel Reale Júnior. Porém tal processo já podia ser vislumbrado, pelo menos, desde o término do segundo turno das eleições presidenciais de 2014, quando o candidato derrotado Aécio Neves (PSDB) não aceitou o resultado do pleito e seu partido deixou claro que não permitiria que a presidenta (re)eleita governasse.

Desde então, nestes mais de 15 meses – contando o período de interinidade do governo Temer – o Brasil viveu imensos retrocessos e, ao contrário do prometido pelos arautos do golpe, a crise política aprofundou-se, bem como os seus reflexos sobre a crise econômica. O pós-golpe, assim, tem sido marcado pela perda de direitos, pela diminuição do papel do Brasil no Mundo, pelo agravamento da crise de representatividade política e da descrença da sociedade na democracia e pelo avanço da onda conservadora, que parece disposta a tragar tudo o que foi conquistado a partir dos anos finais da ditadura civil-militar implantada pelo golpe de 1964.

O golpe de 2016 se insere na lógica de uma nova geração de coups d’état que tem marcado a América Latina nessas duas primeiras décadas do século XXI. Ao contrário do que ocorria nos golpes militares clássicos do século passado, onde a tomada do poder se dava pelo uso da força, o neogolpismo sul-americano tem como base outros atores estatais, que não as Forças Armadas, o que ajuda a travestir o fenômeno com uma aparência de normalidade institucional e de cumprimento dos trâmites democráticos.

Assim, se no caso hondurenho (2009) houve um forte protagonismo do poder judiciário e no paraguaio (2012), do parlamento, o golpe brasileiro caracterizou-se por uma ampla articulação entre setores do judiciário e forças políticas conservadoras representadas no legislativo, que contaram com forte apoio midiático. Tal articulação deixou claro o amplo leque de interesses econômicos, políticos e sociais por trás do golpe, visto que o governo Temer se propôs a implementar, de imediato, um conjunto de reformas impopulares e que dificilmente teriam sido sufragadas pelo voto popular, caso tivessem sido submetidas a um amplo debate nacional ao longo de uma campanha eleitoral.

E tem sido justamente esse leque de interesses, traduzido nas reformas desejadas pelo deus mercado, que tem garantido a sobrevivência política de Temer, mesmo que por aparelhos, a despeito da visível quebra de unidade do bloco golpista e dos baixíssimos índices de popularidade de um governo marcado por denúncias de corrupção e pela incapacidade em lidar com a crise econômica.

Em meio a isto, as esquerdas encontram-se atônitas – ainda sem ter digerido e mesmo compreendido o golpe – e perdidas em suas brigas intestinas. Assim, parte delas agarra-se desesperadamente à esperança quase messiânica em um retorno – com as eleições (?) de 2018 – ao “paraíso perdido”, enquanto outra parece sonhar com uma “reação popular” que mude esse estado de coisas, em um revival do já mítico “espírito de 2013”.

Foi para pensar tais questões que o “Mundo em Transe” reuniu sete colunistas convidados de diferentes formações e instituições. O resultado apresentamos agora no dossiê especial “Um Ano do Golpe”, esperando que os artigos nele presentes contribuam para as necessárias reflexões, críticas e autocríticas. E, acima de tudo, para a resistência.

Os Editores.

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