Mulheres e o golpe, um ano depois

Lívia Gonçalves Magalhães

Brasília - DF, 19/04/2016. Presidenta Dilma Rousseff durante encontro com mulheres no Palácio do Planalto. Foto: Roberto Stuckert Filho/PR

No dia 18 de abril de 2016, no contexto das votações na Câmara de deputados pelo afastamento da presidenta democraticamente eleita Dilma Roussef, a revista Veja lançou a reportagem “Marcela Temer: Bela, recatada e do lar”. Escrita por uma mulher, a jornalista Juliana Linhares (ou pelo menos assinada por ela), o texto enfatizava a relação pessoal entre o então vice-presidente Michel Temer e sua esposa, Marcela Temer, apresentada como provável futura primeira dama. Mas a reportagem era muito mais que isso.

Ficou claro para todos, leitores apoiadores e os críticos, que a revista reforçava o discurso de um “modelo” de mulher, representado nesse caso pela primeira dama, que seria “recuperado” com a saída de Dilma. As palavras que ecoaram com tanta força –“bela, recatada e do lar” – não pretendiam apenas caracterizar Marcela Temer, mas coloca-la como oposição ao que Dilma representa. A reportagem destaca o casamento, a família nos modelos tradicionais e conservadores, Michel como o primeiro namorado de Marcela. Quando convém, sequer se questiona a diferença etária. Do outro lado Dilma, divorciada e sem um novo casamento, sem o homem que a sociedade exige ao seu lado.

Um ano depois de consolidado o golpe com a votação no Senado, é ainda mais evidente o caráter machista e misógino que marcou não apenas o processo de afastamento de Dilma, mas desde sua primeira campanha eleitoral e consolidou-se no governo ilegítimo de Michel Temer. Quando muitos achávamos que avançamos na luta pela igualdade de gênero, hoje percebemos que não apenas nossos passos eram muitos curtos, mas muitas vezes eles não iam de fato rumo ao que esperávamos.

Poucos perceberam, ou preferiram não discutir, já em 2010 o custo político do “ser mulher” na campanha eleitoral. Naquela eleição, Dilma Roussef e Marina Silva foram candidatas, e ambas sofreram com o “peso” do gênero. Dilma era constantemente questionada por sua orientação sexual e por não ser casada; ambas foram vítimas de comentários sobre suas aparências, que não se encaixam em um estereótipo conservador, hoje tão bem representado por Marcela Temer. Em 2014, ambas novamente candidatas, Marina e Dilma viram outra vez suas campanhas marcadas em grande parte por seu gênero, e não por suas propostas e trajetórias políticas. Que roupas vestem, os cabelos, as maquiagens. No fundo, para muitos, a questão era: que lugar devem ocupar no mundo político? A resposta veio descarada com a Veja em abril de 2016: o nosso lugar não é na presidência, mas como primeira dama, recatadas, do lar, em atividades de apoio ao marido presidente, frequentemente relacionados ao verbo “cuidar”: políticas assistencialistas infantis, a idosos, etc.

A revista Veja não foi a única. Se bem ela “consolidou” em suas páginas o “novo” (na verdade velho) modelo de mulher, a construção de um discurso de oposição que levou à crise política e ao golpe de fato esteve sempre permeado nos meios de comunicação por um viés sexista. Foram diversas as capas de revista e jornais em que Dilma era retratada como “descontrolada”, “emocionalmente abalada” e tantos outros adjetivos que nós, mulheres, escutamos frequentemente como forma de deslegitimização. Nas justificativas pela saída de Dilma escutamos frases como “falta de um tanque de roupa para lavar”, “falta de um macho”, e vimos adesivos de carro com o rosto da presidenta em situações constrangedoras. Nada foi feito às escondidas.

Quando Michel Temer assumiu temporariamente em maio de 2016, o que vimos foi a consolidação desse “lugar” que a mulher ocuparia no projeto político, econômico e social dos golpistas. Na nova organização ministerial, por exemplo, nenhuma mulher. Não éramos representadas. Comissões para debater nossos direitos, principalmente ligados à questão reprodutiva e nossa liberdade sexual, apenas com homens; um chanceler em visita oficial ao México que não hesitou em comentar: “Para os políticos homens no Brasil é um perigo porque descobri aqui que metade das senadoras é mulher”, em tom de piada, que de fato é uma das representações do que somos para o novo governo.

Até um ou dois anos atrás lutávamos pelo direito ao aborto legal e gratuito; por igualdade de salários; por representatividade na política e em outras esferas sociais; pelo fim da violência de gênero. É no mínimo assustador pensar que, em tão pouco tempo, mudamos nossa agenda de luta: agora nosso objetivo é ao menos garantir o que conquistamos. E nem isso nos parece possível. Por exemplo, a reforma trabalhista, que permite que gestantes e lactantes sejam autorizadas a trabalhar em locais insalubres.

A palavra que melhor define a situação feminina no último ano é retrocesso. Se olhamos as lutas femininas nos últimos 30 anos, é certo que avançamos muito, muito pouco. Porém, o que retrocedemos em um ano é inacreditável. Se já nos encontrávamos em uma situação vulnerável que exigia cada vez mais nossa ação e luta, hoje percebo que muitas nos sentimos perdidas frente ao quadro de derrota. Retrocedemos em direitos, nas nossas relações cotidianas, na nossa luta pela vida, em um dos países em que mais se morre por ser mulher no mundo.

Que fique claro, o machismo não é exclusividade da direita conservadora. A cada dia surgem mais questionamentos dentro de grupos e partidos políticos de esquerda sobre as práticas e reproduções machistas do nosso cotidiano. Entretanto, a prática misógina e o machismo são parte dos projetos e planos de determinados grupos conservadores que tomaram, via antidemocrática (sempre importante destacar), a presidência nacional. Infelizmente, esses grupos contam com inúmeros representantes eleitos democraticamente em ambas as casas, deputados e senadores que colocam em prática um grande retrocesso em conquistas de décadas, em um cenário desolador para nós, mulheres.

Precisamos enfrentar algumas questões cruciais nesse momento. Primeiro, que a misoginia e o machismo que marcam o golpe não “nascem” com ele, mas estão no nosso dia a dia, são parte da nossa sociedade. Em segundo lugar, que não foi um golpe contra UMA mulher. Foi um golpe contra todas nós. E, juntas, precisamos encontrar o caminho para lutar coletivamente. O golpe de 2016 nos lembrou de algo que já deveríamos ter aprendido: se não formos para a luta por nós mesmas, não nos resta outra que aceitar o papel imposto de “belas, recatas e do lar”.

Lívia Gonçalves Magalhães é Doutora em História (UFF), Professora de História do Brasil República no Instituto de História da UFF e organizadora do livro Lugar de Mulher: Feminismo e Política no Brasil (Oficina Raquel, 2017).

 

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