Um ano, 20 anos, uma vida de melancolia

Luis Maffei

Protesto no Mineirão - Jogos Olímpicos 2016

Agosto é mês que costuma marcar, de distintas maneiras, a vida brasileira, Getúlio que o diga, ou que o escreva, ou que encomende a escrita em forma de bilhete de despedida. Em agosto de 2016, exatamente há um ano, o Brasil, a exemplo do seu maior líder do século XX, se suicidava. É claro que o Brasil, como tal, continua, alguns dirão “infelizmente”, nenhum meteoro atingiu Brasília, minha cidade, respingando no resto do país e poupando o resto do mundo, ao menos o resto do continente. Mas o Brasil sobrevivido após agosto de 2016 é um lugar suicidado. Já que ele, infelizmente, ainda existe, posso dizer que é um país morto-vivo, um país zumbi.

Em agosto de 2016, o final do processo de impeachment de Dilma Rousseff coincidiu com a realização dos Jogos Olímpicos do Rio de Janeiro. Uma estranha cisão ocupava muitos corações desportofílicos como o meu: de que maneira conciliar o júbilo diante de cenas entre o épico, o cômico e o trágico, que só o esporte pode construir e se davam diante de nossos olhos, com o espetáculo destrutivo e hediondo da conclusão do golpe de Estado? Como apoiar aqueles atletas de amarelo e verde que pleiteavam a glória (atletas, aliás, em sua maioria, que viram na Bolsa Atleta de Lula e Dilma um trampolim) no momento em que estas cores, apropriadas pela mesma elite de sempre, passaram a nos repugnar? Como articular, no mesmo campo de visão e pensamento, figuras díspares como Rafael Nadal e Michel Temer, Mariana Pajón e Cristovam Buarque, Usain Bolt e Mendoncinha, Gwen Jorgensen e Aécio Neves?

Como de costume, precisei escrever. Poesia. Dessa tensão surgiu Vista de Olímpia (coleção Megamini, 7Letras), recolha breve de poemas dados a um mítico testemunho daquele agosto, alguns em forma de homenagens a atletas, outros arriscando vômitos especulativos sobre coisas como Rio de Janeiro, Brasil etc. A cisão olímpica se intensificava quando, nas praças de esporte, via-se que os nada incomuns “Fora, Temer” eram fortemente superados por um público que, majoritariamente, se alternava entre a aderência ao golpe e a indiferença. O momento de maior desespero didático que vivi aconteceu no Maracanã durante a final do futebol feminino. Uma mulher, portando um cartaz contra o biônico de plantão, ensejou que a família paulistana quatrocentona às minhas costas conversasse entre si em termos como “essa gente é doente, não adianta mesmo” etc. Minha redarguição levou-me a uma conversa incendiada com pessoas realmente deselegantes, como a maioria dos burgueses deste tipo, mas guardei da cena uma frase dita pela senhora da família, a única com certa delicadeza no trato: diante de minha pergunta, “mas a senhora entende que as oportunidades foram distintas para sua filha e sua empregada?”, ela respondeu, “claro que não, foram as mesmas”. O desespero: ouvir isto em circunstância que deveria ser olímpica, polissemicamente. O didatismo: perceber que muito pouca coisa tinha mudado em certa cabeça brasileira que, em grande medida, detém o país, e é manobrada, em virtude de éthos e interesses comuns, por quem o detém de verdade.

Esta cena fez-me abrir Vista de Olimpia com um poema intitulado “Brasil 2016”, do qual cito um fragmento: 

Este país

(¿este o quê?)

é

(¿é?)

onde almofadinhas e dondocas de São Paulo

espiam o máximo de eventos que podem ocupam

todas as cadeiras que conseguem do mesmo modo

como tomam chá morno servido pela empregada se sentindo

os almofadas e as dondocas

não as empregadas

sempre em casa

(…)

É

(¿hã?)

o país das empregadas melancólicas e de silêncio

tomado todo por um amarelo-meningite que é cor de usurpação cinismo e

golpe pelas costas (…)

À impossibilidade de desenhar um país, ao sequestro das cores que já nos causaram ao menos simpatia (ainda que elas sejam originalmente colonialistas…), agrega-se a figuras das “empregadas melancólicas”, que, um ano depois, consigo perceber melhor. O Brasil não morreu. Tivesse morrido, poderíamos fazer seu luto. Do quadro cujas formas já estavam nítidas em 2015, uma certeza é a mais dura, e isso a grosseira família ricazinha quatrocentona intuiu ao gritar, junto a outras tantas, “o Maraca é nosso”: o Brasil tem dono, e não somos nós. Os donos do Brasil, após um período em que, na verdade, não abriram mão de muita coisa, mas tiveram que ver os não donos em lugares que, obviamente, nunca foram deles, voltaram a sair do armário, e saíram babando. E estes são os donos de sempre, que traduzi no poema como “os mais contínuos genocidas das cidades e dos campos/ genocidas de dinheiro até a bunda de mercado até os ossos/ pastores da religião plutocracia”.

O Brasil, infelizmente, não morreu. Não estamos de luto. Viramos zumbis, mortos-vivos melancólicos. Marsilio Ficino, num século XVI irresistível e neoplatônico, entende a melancolia como traço de gênio. Se ele vivesse no Brasil pós-agosto de 2016, pós-PEC 55, por exemplo, reveria a especificidade de sua tese, entendendo que a melancolia, ao menos na versão brasileira, é um traço coletivo de quem perdeu e se cansou. Até alguns amarelos-meningite, os maiores ladrões, ou semiladrões, de direitos, lugares e oportunidades, se cansaram, e poderão dizer que ninguém os representa porque a corrupção blábláblá. E nós, o heterodoxo conjunto dos que só gritariam “o Maraca é nosso” em coro afetivo, estamos melancólicos demais para pensar em agostos novos.

O Brasil se suicidou, mas não morreu. Neste meio tempo, muita gente morreu ‒ de tristeza, sim, mas como consequência verde-amarela de se ver excluída de quase tudo, dos direitos mais básicos aos simbolismos mais sutis. Um ano depois, diante do resto de vida zumbi que este país ‒ “(¿este o quê?)” ‒ ainda, desgraçadamente, tem diante de si, repito com cansaço e amargura a estrofe final de “Brasil 2016”: “Este país/ falácia e medo/ ensina o que é o contrário da esperança”.

Luís Maffei é poeta, ensaísta e professor de Literatura Portuguesa da Universidade Federal Fluminense – UFF.

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