Um país estuprado

Sylvia Moretzsohn

Na véspera do primeiro aniversário do ato final que sacramentou o golpe, diante do olhar apático do presidente do STF – aquele mesmo que pouco depois lamentaria o “tropeço da democracia”, como se não tivesse nada a ver com isso –, o sujeito que ejaculou no pescoço de uma mulher sentada no banco de um ônibus teve sua prisão em flagrante relaxada por um juiz que considerou não ter havido “constrangimento, nem violência ou grave ameaça” que configurariam o crime de estupro.

Não poderia haver simbolismo mais oportuno nessa coincidência.

Desde o espetáculo da primeira votação do impeachment, no dia 17 de abril do ano passado, estamos sendo continuamente estuprados. De maneira escancarada, aberta, às gargalhadas, sem qualquer pudor. “Suruba é suruba”, disse o eminente senador, aquele que queria “estancar a sangria” com uma outra suruba, “com o Supremo, com tudo”. “Aí é todo mundo na suruba, não uma suruba selecionada”.

Sim, porque, vejam bem, nada mais odioso do que a seletividade. “Ou todos nos locupletemos ou restaure-se a moralidade”, já dizia o velho Stanislaw. Pois o golpe dado em nome da moralidade institucionalizou a suruba.

Nesse grande bordel em que se transformou, o país vai sendo vendido a retalho.

Como foi possível, em tão pouco tempo, todo o longo, lento, penoso e contraditório processo no rumo de uma nação soberana e internacionalmente respeitada se desfazer dessa forma?

Sim, eu sei, há muitas explicações, que articulam os erros – ou, mais precisamente, as opções – do PT no governo à ação das forças de direita desde o caso do Mensalão, com as condenações “porque a literatura permite”, até os movimentos que conseguiram botar multidões nas ruas em 2013 para iniciar o processo que culminaria três anos depois.

Explicações existem. Resta saber se aprendemos com elas.

Numa das cenas iniciais do Dossiê Jango, de Paulo Henrique Fontenelle, o advogado Jair Krischke, que durante a ditadura se notabilizou como defensor dos direitos humanos, fala sobre o avanço das conquistas populares e a expectativa geral de que “agora, vai”. É um relato comovente. “Agora, vai”. E não foi.

Rever este documentário hoje é dolorosamente importante.

Porque explicações existem muitas, mas parece que não aprendemos.

Então vamos nos reerguendo lentamente até que, de repente, tropeçamos.

Foi só isso: um tropeço da democracia.

Não houve golpe, como não houve estupro. Foi só uma ejaculação em cima de uma mulher. Como nos adesivos com a caricatura de Dilma de pernas arreganhadas na lataria do carro, no buraco do tanque de gasolina, recebendo um jato de combustível: era só uma piada.

Há um ano, no dia em que a presidente apresentou sua defesa diante de um Congresso sonolento, na véspera da votação final em que o Senado sacramentou a derrubada do governo, lembrei da famosa afirmação de Darcy Ribeiro sobre o orgulho de ser um perdedor.

Poucas coisas são tão verdadeiras quanto essa, e naquele dia tivemos mais uma vez a comprovação disso.

Estar do lado justo é sempre motivo de orgulho. É esta rara certeza que nos dá serenidade, apesar de tanto e tão profundo sofrimento. É o que nos faz lembrar – só para citar a famosa canção – que talvez o mundo não seja pequeno, nem seja a vida um fato consumado.
A luta é permanente, inescapável. Por isso amanhã é sempre outro dia.

É sempre importante repetir isso, embora, um ano depois, esteja sendo tão difícil arrumar forças para lutar contra o desânimo que se abate sobre todos nós.

Sylvia Moretzsohn é jornalista, doutora em Serviço Social (UFRJ) e professora aposentada do curso de Jornalismo do IACS/UFF.

 

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