Mia Senhor a Língua

Manifestação em defesa da língua galega organizada pela Mesa pola Normalización Lingüística

Luís Maffei

São tempos de separatismo. Os catalães desfraldam suas bandeiras em praça pública enquanto discutem se vale a pena ser Espanha. Em rigor, Espanha é a Península Ibérica, não uma Castela estendida até quase ser Portugal. Os separatismos, entre outras virtudes, nos oferecem a possibilidade de pensar que os Estados são ficções nas quais acreditamos, com mais ou menos força, dependendo da época, desde a Idade Média. O problema do separatismo é que ele também acredita nesta ficção. Eu acredito nela cada vez menos. Mas acredito em afetos que criem comunidades. Se toda comunidade é inventada, acredito na possibilidade de invenções afetivas de comunidades, especialmente as que se põem, a si mesmas, em diferença.

Nos tempos de Camões, Espanha era a Península. Por isso, no Canto I d’Os Lusíadas, ele pôde escrever, e pôr indiretamente na boca do oriental Baco, que vinha uma “gente fortíssima de Espanha” subjugar outros povos. Toda a gente de Espanha – portugueses e castelhanos – aprendeu a escrever em outra língua, cuja versão contemporânea anda recuperando fôlego plenamente literário nestes tempos: o galego. Um português como eu não dirá, como os galegos, galego medieval, mas galego-português, o que já une uma separação em princípio dada. Eu gosto muito de falar português. Gosto ainda mais porque é a língua de Camões. Esta língua, enquanto literária, foi plantada pelo galego-português, mais ou menos como escreveu Pessoa num dos poemas de Mensagem, “D. Diniz”:

Na noite escreve um seu Cantar de Amigo
o plantador de naus a haver,
e ouve um silêncio múrmuro comsigo:
é o rumor dos pinhaes que, como um trigo
de Império, ondulam sem se poder ver.

Pessoa, em Mensagem, foi, infelizmente, imperial. Seu português espalhado pelo mundo não deixava de ser língua de dominação. Mas, de fato, foram as cantigas de amigo e de amor de trovadores como o português D. Dinis ou o castelhano Afonso X que nos ensinaram a falar e escrever, e ensinaram ao pai de Luso a criticar um (pobre) império que só séculos depois aprenderia, de maneira dolorosa, a se separar de muitas coisas, inclusive de si mesmo. A língua, ensina o galego, é senhor, senhora, mia senhora, Nossa senhora de mim, como escreveu, em feminino, Maria Teresa Horta, já nos anos 70 do século passado.

D. Dinis, na veia:

Proençaes soen mui ben trobar
e dizen eles que é con amor;
mais os que troban no tempo da frol
e non en outro, sei eu ben que non
an tan gran coita no seu coraçon
qual m’eu por mha senhor vejo levar.

Não me importam muito as “naus a haver”, mas me importa o trovador como inventor de futuro, de primaveras em qualquer estação e, hoje, de encontros em meio às separações. Gosto da língua portuguesa, gosto de que tudo, em nossa poesia, tenha começado com uma língua não nacional. Lembro-me, agora, de Gonzalo Armán, um simpático galego não separatista que vendia livros no corredor da Faculdade de Letras. Tempos e conversas depois de o ter conhecido, descobri-o leitor e poeta. Por falar em encontros e língua, não me esqueço de ele me parando, estando eu atrasado ou não, para dizer, de pleno cor, poemas de Rosalía de Castro (em galego), de García Lorca (em castelhano) e seus próprios (em galego, em castelhano). A ele, que tanto me disse de uma língua em estado de afeto e serviço, este texto é dedicado.

Luís Maffei é poeta, ensaísta e professor de Literatura Portuguesa da Universidade Federal Fluminense – UFF

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