O FC Barcelona e o nacionalismo catalão

Adriano de Freixo

03 de outubro de 2017. Greve geral na Catalunha em protesto contra a violência da polícia espanhola na repressão ao referendo ocorrido dois dias antes. Milhares de pessoas tomam as ruas de Barcelona. O principal clube de futebol da cidade – e um dos maiores do mundo – também paralisa suas atividades e suspende os treinos de todas as categorias, dos profissionais às divisões de base.

Na semana anterior, o clube já havia divulgado uma nota criticando as ações repressivas do governo espanhol, onde se lê: “Na sequência dos acontecimentos dos últimos dias e, principalmente, de hoje, o FC Barcelona […], mantendo-se fiel aos seus compromissos históricos em defesa da nação, da democracia, da liberdade de expressão, e da autodeterminação, condena qualquer ato que possa impedir o exercício em liberdade desses direitos”.

De fato, a forte identificação do F.C. Barcelona com sua região de origem e com o nacionalismo catalão é, historicamente, uma das marcas do clube, mesmo com ele tendo se tornado um dos ícones do futebol globalizado. E isto se traduz através de gestos e atos simbólicos como, por exemplo, o fato da braçadeira de capitão do time reproduzir a bandeira da Catalunha ou dessa tomada clara de posição nos eventos recentes envolvendo o separatismo na região.

Fundado no final do século XIX, por um ex-jogador suíço com o nome de Barcelona Football Club e tendo em seu primeiro time jogadores de diversas nacionalidades, a identificação entre o clube e o nacionalismo catalão começou a ser construída somente alguns anos mais tarde. Um episódio marcante neste processo foram os apupos proferidos por torcedores do Barcelona, em 1925, durante a execução da Marcha Real (o hino nacional espanhol) em um jogo comemorativo contra o Júpiter, outro clube da Catalunha. As vaias ocorreram em protesto contra a ditadura direitista de Primo de Rivera, que tinha suprimido a autonomia catalã e proibido as línguas locais em atos públicos. Como desdobramento deste ato, o clube foi fechado por seis meses pelo governo central de Madri.

Nos anos 1930, o nacionalismo catalão foi se inclinando mais para a esquerda com o surgimento de grupos como a Esquerra Republicana, que vence as eleições municipais na maior parte da Catalunha, em 1931, e chega proclamar a independência em relação à Espanha. Esta posição foi revertida posteriormente através de negociações com o governo da II República Espanhola, estabelecida após o fim da ditadura de Primo de Rivera e do exílio do rei Afonso XIII (1931). O novo regime reconheceu a autonomia catalã, com o catalão voltando a ser a língua oficial da região.

A experiência da II República espanhola foi bastante tumultuada, com uma forte polarização ideológica entre a esquerda e a direita e o acirramento das tensões sociais. Com a vitória da Frente Popular – coalizão formada por partidos republicanos de esquerda, socialistas, comunistas, grupos autonomistas regionais e diversas outras organizações – nas eleições de fevereiro de 1936 e o estabelecimento de um governo de esquerda, a direita espanhola – que tinha um grande peso dentro das forças armadas – articulou um golpe de Estado, sob a liderança do General Francisco Franco, dando início a uma sangrenta guerra civil (1936-1939).  Nesse período de guerra, o esporte de modo geral e o futebol em particular desempenharam um papel extremamente relevante na Catalunha, tanto como um mecanismo de solidariedade, quanto para incentivar a moral dos combatentes e da população como um todo, servindo de instrumento de propaganda e de aglutinação social e tendo, assim, uma função estratégica durante o conflito.

O F. C. Barcelona teve um forte envolvimento nesses eventos, tornando-se um dos ícones da resistência republicana ao golpe da extrema direita. Logo, no início da Guerra Civil, o presidente do clube, Josep Sunyol, político catalão ligado à Esquerra Republicana, foi fuzilado sumariamente, sem julgamento, na Serra de Guadarrama, ao ser reconhecido por tropas franquistas que ocupavam a região. Sunyol estava ali para dar apoio aos soldados catalães que atuavam na resistência ao cerco de Madri promovido pelos militares golpistas. Além disso, o clube organizou uma excursão por alguns países americanos, como o México e os EUA, arrecadando fundos e angariando apoios para a causa republicana, tendo um sucesso tão grande que o número de partidas programado inicialmente foi ampliado. O apoio do presidente mexicano Lázaro Cárdenas aos republicanos espanhóis acabou possibilitando que, posteriormente, vários jogadores catalães se instalassem naquele país, depois de efetivada a vitória dos exércitos de Francisco Franco. A guerra também gerou um forte impacto no número de torcedores e aficcionados do Barça, fundamentalmente homens jovens que se constituíam no principal contingente de combatentes: o clube passou de 7.719 sócios, em 1936, para 3 mil, em 1939.

Com o início da ditadura franquista, em 1939, um regime centralizador e de tons fascistizantes, a repressão aos separatismos regionais e a imposição do centralismo de Castela se tornaram prioritárias. Tendo sido a Catalunha, uma das regiões que mais resistiu ao golpe e o F. C. Barcelona, um dos ícones desta resistência, o ditador não deixaria o clube catalão passar incólume. Como assinalou o escritor e jornalista (e torcedor do Barça) Manuel Vasquez Montalbán, ao escrever sobre a ocupação de Barcelona pelo exército franquista, “a quarta organização a ser expurgada depois de comunistas, anarquistas e separatistas era o Barcelona Football Club”.

Nesse sentido, eventos como o bombardeio da sala de troféus do Barça, durante o ataque final das forças franquistas à Catalunha; a alteração do nome do clube para Club de Fútbol Barcelona (traduzindo-o assim para o castelhano); a supressão das quatro faixas vermelhas – alusivas à bandeira da Catalunha – em seu escudo, substituindo-as por duas, representando a bandeira nacional espanhola; ou a nomeação, nos anos seguintes, de seu presidente – um colaborador de Franco – pelo governo central, foram tentativas claras feitas de destituir o clube de sua identidade catalã. No entanto, nas décadas posteriores o Camp Nou, o estádio do Barcelona, foi um dos poucos espaços públicos – senão o único – onde se podia falar catalão (proibido pelo regime) e onde se gritavam palavras de ordem nacionalistas. Para muitos, o ditador tolerava tais manifestações justamente porque era uma forma de restringir o sentimento nacional catalão ao espaço de um estádio de futebol, canalizando suas energias assim para algo que, no fundo, não passava de uma diversão inofensiva que não ameaçava seriamente o regime,

Como o governo central não escondia sua preferência pelo Real Madrid – alçado à símbolo da unidade sob Castela –, nos anos da ditadura, a rivalidade entre os dois clubes se acentuou marcadamente, construindo-se, então, a mística do maior clássico do futebol espanhol. Não é à toa que, simbolicamente, a vitória do Barça sobre o Real Madrid, em 1974, nos estertores no regime franquista, por 5 X 0, no estádio do adversário, é visto como um dos marcos da crise da ditadura e do início da transição, percepção esta reforçada pelo destaque dado à partida pela mitologia clubística “blaugrana”, inclusive com inúmeras referências à ela em seu museu.

Assim, uma das grandes questões que aparecem neste momento em que o separatismo catalão volta á ordem do dia é: como ficaria a situação do Barça em uma hipotética independência da Catalunha? A Liga Espanhola, ciente da importância do clube e de sua influência sobre o povo catalão, ameaça desligar o clube e excluí-lo de todas as competições espanholas, caso o movimento separatista seja vitoriosa, em uma clara de tentativa de pressão (talvez “chantagem” seja um termo mais adequado).

No entanto, isto não tem intimidado o Barça e seus torcedores. O poderio econômico do clube, a força internacional da marca “Barcelona” e os lendários derbies contra o Real Madrid, em torno do qual o futebol espanhol gira, são trunfos que os “blaugranas” possuem. Será que a rica liga da Espanha estaria realmente disposta a abrir mão dos lucros proporcionados pelo Barcelona e pela rivalidade presente no maior clássico do mundo em nome da defesa da “unidade espanhola”? Parece pouco provável. Até porque existem outras ligas nacionais na Europa que contam com a participação de clubes de fora e a manutenção do clube catalão no campeonato espanhol não teria nenhum ineditismo.

Afinal, no bilionário negócio do futebol globalizado, essas “pequenas” questões locais não podem impedir que o show continue…

* Este artigo é uma adaptação/atualização de um trecho do livro “Futebol: o outro lado do jogo” (Editora Desatino, 2014).

Adriano de Freixo é Doutor em História Social (UFRJ), professor de Relações Internacionais na Universidade Federal Fluminense (UFF) e um dos editores do “Mundo em Transe”. Há alguns anos vem desenvolvendo pesquisas sobre Esporte – notadamente o futebol – e Relações Internacionais.

Seja o primeiro a comentar

Faça um comentário

Seu e-mail não será divulgado.


*