O nacionalismo no século XXI

Manifestantes separatistas no Curdistão

Mônica Leite Lessa

Dele não há nenhuma definição amplamente aceita. Ninguém foi capaz de mostrar de forma conclusiva sua modernidade ou antiguidade. Discorda-se sobre suas origens, seu futuro é incerto. Sua difusão global ora é interpretada pela metáfora maligna da metástase, ora sob os signos sorridentes da identidade e da emancipação; e onde começaram esses processos, no Novo Mundo ou no Velho ? […] ? O mal-estar se acentua: considerando-se o vasto papel que o nacionalismo desempenhou em dois séculos de política mundial […]

ANDERSON: 2000; 7.[i]

O debate epistêmico sobre o nacionalismo, sintetizado acima por Anderson, tem sido, quotidianamente, “atropelado” por notícias sobre acontecimentos, movimentos ou conflitos de cunho nacionalistas. Raramente, no entanto, a palavra nacionalismo é evocada nessas notícias. Muito provavelmente por causa do “mal estar” de sua associação ao nazi-fascismo e com a extrema direita. Ou seria por que em tempos de globalização e de multiculturalismo muitos acreditam que o nacionalismo desapareceu ? Ou tornou-se um tema marginal, ou episódico?

Mas se for assim, podemos nos perguntar: como interpretar o Brexit ? Ou a eleição de Donald Trump com seu slogan America first? E como classificar os movimentos separatistas ou independentistas ?

Ideologia, conceito político, movimento político, sentimento, ou fenômeno antropológico, como prefere Anderson. “A dificuldade, em parte, consiste na tendência inconsciente que as pessoas tem de hipostasiar a existência do nacionalismo […] de classificá-lo como uma ideologia.” Na Ásia, nas Américas e mais tarde na Europa, defende Anderson, surgiu primeiramente a ideia de nação: “uma comunidade política imaginada – e imaginada como sendo intrinsecamente limitada e, ao mesmo tempo, soberana.”[ii]

Outras abordagens destacam a importância do contexto da Revolução Francesa, quando a “nação passa a encarnar a soberania substituindo a pessoa do príncipe.” Hobsbawm[iii], por exemplo, distingue o sentimento nacional do nacionalismo, e considera que empregar o termo nacionalismo antes de 1789 é um anacronismo. Pra ele, o nacionalismo como sentimento coletivo, militância política ou movimento de massas, se observa apenas a partir das unificações da Alemanha e da Itália, concluídas em 1870, e no período da Primeira Guerra Mundial.

Outro ponto a se destacar diz respeito à concepção francesa, de coesão social estabelecida por laços jurídicos e contratuais. E a concepção alemã, baseada na cultura e na etnia. Em ambos os casos, o Estado nação surge  do mosaico formado por diferentes comunidades de nação em um processo de adesão, sujeição e cooptação, em boa parte cultural, liderado pelas elites nacionais no bojo do avanço do liberalismo, da democracia e da industrialização.

Mas, como reconhecer uma nação, provocou Renan. Pergunte à comunidade que ela representa, ele respondeu, pois a nação é um plebiscito diário. Essa é a origem do princípio da autodeterminação dos povos, do princípio das nacionalidades consagrado no Tratado de Versalhes. O princípio das nacionalidades, no entanto, nunca foi equitativamente aplicado posto que os vencedores das duas guerras mundiais redefinirem o mapa mundial sem maiores embaraços.

Na contemporaneidade, o nacionalismo pouco mudou. Ele encontra-se nos movimentos separatistas ou independentistas que exigem, “sob os signos sorridentes da identidade e da emancipação”, o direito ao princípio das nacionalidades. Todos reivindicam o reconhecimento da nação/comunidade que representam, o direito à soberania e autonomia da nação, o direito à constituição a um Estado nacional.

Alguns desses movimentos buscam a independência de um Estado nacional ao qual estão vinculados há séculos, é o caso da Catalunha. Outros buscam, simplesmente, o direito à existência de um Estado nacional, é o caso do povo palestino. Ou seja, o complexo processo de formação da maior parte dos Estados nacionais, em todos os continentes, quase nunca observou o princípio das nacionalidades.

Em circunstâncias especiais, há movimentos separatistas que alcançam os seu objetivos, foi o caso das ex-repúblicas bálticas da ex URSS (Estônia, Letônia e Lituânia), por exemplo. Mas não é a regra. A maior parte desses movimentos não é reconhecida pelas instâncias internacionais. Ou seja, o futuro dessas lutas depende de vários fatores, sobretudo daqueles de interesse da política internacional. O Estado nacional pode até promover a “importância e a significação da identidade cultural como traço fundamental na constituição das comunidades nacionais”, tal qual defendida pelo multiculturalismo do ex-Primeiro Ministro canadense Pierre Trudeau, mas via de regra não tolera ameaças separatistas.

Por isso, o debate sobre o tema do nacionalismo não se limita nem à extrema direita, nem aos movimentos separatistas, mas está inserido nos marcos do neoliberalismo, do fim do mundo bipolar, da política da globalização, da ascensão da China e, como não pode deixar de ser, do multiculturalismo.

*Mônica Leite Lessa é Doutora em História pela Universidade de Paris X e Professora do Departamento de Relações Internacionais da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ).

Referências:

[i] ANDERSON, Benedict. Introdução IN BALAKRISHNAN, Gopal (Org.). Um mapa da questão nacional. [Trad.]. Rio de Janeiro: Contraponto, 2008, pp. 7-22.

[ii] Ibid., pp. 31-32.

[iii] HOBSBAWM, Eric. Nações e nacionalismo desde 1870. São Paulo: Paz e Terra, 1998.

 

 

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