Entre França e Somália: as máscaras brancas da mídia brasileira

Pintura de Stelio Faitakis

Pablo Fontes

Por que as mídias brasileiras, de um modo geral, retratam os atentados, as violências, as questões sócio-econômicas de maneira diferente e hierarquizadas quando a pauta é o (a) negro (a)? Cotidianamente, os discursos racistas se apresentam de modo implícito e explicito e nos negamos a (ou fingimos não) enxergar. Por que se aborda de modo diferenciado as questões envolvendo brancos e negros na mídia? Por que insistentemente há um discurso moral salvacionista, caracterizado por uma cultura do espetáculo e uma cultura da indiferença, quando o negro é visto e/ou compreendido como “problema” e/ou a questão?

Ao revisitarmos os atentados que ocorreram em novembro de 2015, em Paris, nota-se de imediato que houve uma comoção generalizada no mundo. O termômetro das redes sociais nos aponta para as incontáveis mensagens, discursos e narrativas que ganharam as principais páginas dos noticiários. A assim chamada “Cidade Luz” ganha espaço e tempo onde a tragédia e o drama se fundem. As vidas perdidas importam, têm legitimidade. Já na Somália, no recente atentado, de 14 de outubro de 2017 em que milhares de pessoas foram mortas, não há gente, não há cidadão cosmopolita. Existe e reina a indiferença e a arbitrariedade que caracteriza o Sistema Internacional (SI) – e que nos é imposta – é compreendida/interpretada como uma verdade absoluta, indiscutível.

É nesse sentido, que o contrato racial aparece nas estéticas das mídias. É neste lugar e cenário, mas não somente, que o negro é revelado, exposto e despido. Onde o racismo e os diversos preconceitos se mostram latentes a luz da câmera fotográfica por meio de seus framings. A geopolítica construída, por vezes, por ideias e concepções amparadas nas narrativas e discursos de igualdade, revela e aponta para as idiossincrasias e as antíteses da vida social. Em si, o corpo nu do negro é um homo sacer (AGAMBEM, 2015), sem quaisquer direitos e deixado a mercê de alguma “vingança divina”.

Não há solidariedade, há sim, uma desumanização caracterizada pelo paradoxo do invisível (SOARES, 2017). Sabemos que existe, mas quando retornamos para os nossos lares fingimos não enxergar. O racismo é tão latente que ao acessarmos as formas que o atentado na Somália foi abordado, não há drama, não há dor. Não importa as vidas precárias, elas não existem. Existem apenas, quando chegam próximas as nossas fronteiras. Aqui sim, é visceral o discurso de insegurança, medo etc. É neste cenário e tantos outros que o negro é um problema.

A cultura da indiferença está tão impregnada no nosso dia a dia, apoiada e amparada pelas mídias, que qualquer personagem da vida política que vá de encontro a este discurso torna-se uma exceção. A Somália é mais um objeto dessa indiferença, dessa desumanização. O Brasil, segundo país no mundo com maior população negra, reflete os paradoxos dos próprios negros. Como já dizia Fanon (2013): são negros com máscaras brancas que compram e alimentam esse discurso ocidental, progressista, capitalista e neoliberal nos seus cotidianos.

O problem-solve está enraizado nas nossas vidas que sistematicamente buscamos através dos relatórios, das pesquisas, das estatísticas das Organizações Internacionais que nos apontem para um possível desenvolvimento e saída do caos. A política internacional, especificamente, os discursos dos Chefes de Estados e seus representantes políticos (retro) alimentam a segregação, os preconceitos e o racismo. Donald Trump- atual presidente norte-americano, representante do alto empresariado branco, revela tanto nas suas redes sociais (twitter), como nos seus discursos televisionados, o racismo, a xenofobia e os múltiplos preconceitos sobre a população somali. Ao reduzir a Somália a somente um “país perigoso”, reduto de grupos terroristas, (re) afirma e cristaliza o estereótipo que permanece no imaginário da opinião pública desde a década de 1990 (Operação de Paz na Somália- UNOSOM II).

A homogeneização e a plasticidade com que as questões são tratadas e naturalizadas é assustador, principalmente, quando mulheres, crianças são reduzidas a vítimas amorfas. A despolitização, e a não agência destas pessoas revelam as violências que estamos acostumados (as) a presenciar. O etnocentrismo midiático e cultural brasileiro revela como nossas mídias são coloniais. A colonização da mente se (re) faz por meio da persuasão junto à opinião pública. Não baseado no real, mas pelo que eles entendem/interpretam por real. Não há mediação midiática, mas há sim, espetáculo e/ou indiferença por meio da representação e do estereótipo cristalizado no tempo e no espaço.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

AGAMBEM, G. Homo Sacer: O poder soberano e a vida nua. Belo Horizonte: Editora UFMG, 2015.

FANON, F. Peles Negras, Máscaras Brancas. Salvador: EDUFBA, 2016.

SOARES, Taísa. “Paradoxo do (In) visível: a fotografia na cooperação internacional para o desenvolvimento”. In: Revista Neiba, 2017.

*Pablo Fontes é jornalista, mestre em Relações Internacionais pela UERJ e doutorando em Relações Internacionais na PUC-Rio.

 

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