Vitória desarmamentista em Niterói aponta os limites do discurso conservador radicalizado

Marcos Kalil Filho

Uma semana antes da consulta pública puxada pelo Executivo do município de Niterói para determinar o armamento da Guarda Municipal, nem mesmo a oposição militante de esquerda ao governo do prefeito Rodrigo Neves diria que, hoje, estaríamos diante de um resultado acachapante de 71% de votos contra colocar armas de fogo nas mãos dos guardas. Dos 18.991 eleitores que compareceram aos locais de votação no domingo, apenas 5.480 ou aproximadamente 29% seguiram o caminho conservador, número tímido perto dos 13.478 partidários do “Não”, que venceu em 48 das 49 urnas.

O passado recente da cidade, para além da conjuntura nacional, congrega uma série de elementos que compunham um quadro desolador aos auspiciosos intentos dos progressistas niteroienses. Entre 2014 e 2016, a Praia de Icaraí reuniu as maiores manifestações verdeamarelas fora do eixo das metrópoles e capitais de estado. Os movimentos sociais de direita, como o MBL e o Vem Pra Rua, encontraram importante ressonância de seus discursos entre a classe média branca privilegiada da zona sul de Niterói. Inclusive, Kim Kataguiri, líder do Movimento Brasil Livre, esteve na cidade para apoiar o “Sim”. Em julho de 2016, uma aliança entre a Igreja Católica local e o referido grupo garantiu apoio popular para que o capítulo sobre diversidade e gênero do Plano Municipal de Educação fosse alterado, restringindo o alcance do dispositivo.

Além disso, a segurança pública assumiu centralidade nas discussões políticas municipais. Ainda sob o governo de Sergio Cabral, a instalação de UPPs insuflou um senso comum que, respaldado ou não pelas estatísticas de violência urbana, acirrou a percepção de insegurança do cidadão médio. O niteroiense passou a acreditar que uma parcela significativa dos traficantes cruzou a ponte e se instalou em seus morros, fugindo da nova política de ocupação das favelas cariocas. A partir daí, os políticos enxergaram no medo da população uma grande oportunidade. A cada duas falas públicas do prefeito, uma discorria sobre o papel da Prefeitura na pauta da segurança. Dessa maneira, o alcaide das terras de Arariboia inaugurou pórticos de monitoramento nas entradas da cidade e um caro e questionável Centro Integrado de Segurança Pública (Cisp) com 382 câmeras espalhadas pela cidade. O armamento da Guarda Municipal, assim, parecia logicamente um próximo passo. A bem verdade, o próprio prefeito já dava como certa a anuência pública da medida.

A incitação ao medo coletivo e a onda conservadora pareciam uma fórmula perfeita e retroalimentada para ganhar de lavada uma consulta pública que oferecia solução fácil e rápida. Talvez por isso mesmo a divulgação tenha sido tão precária. Mais do que isso, o que se sabe hoje, de encontro ao que se esperava – a intervenção do poder econômico comprando e aliciando votos -, é que o próprio processo como um todo foi apressado e atabalhoado. A empresa responsável pela organização da votação foi contratada sem licitação cinco dias antes do pleito. No domingo, uma jornalista de O Globo votou duas vezes em virtude da fragilidade do sistema de checagem de dados pessoais. Nos bastidores, secretários e assessores da Prefeitura demonstravam cansaço e falta de preparo.

Ainda assim, informações internas dão conta de que a organização, de fato, esperava o comparecimento de 20.000 votantes, o que se concretizou. O número representa 5% dos 382.000 eleitores de Niterói. Pode parecer pouco, mas dada a fraquíssima campanha da Prefeitura, o debate inexistente e a tradição nula de participação política direta do brasileiro, não deixa de ser um contingente minimamente razoável.

O resultado parece apontar para a presença da militância de esquerda da cidade na votação, tomando a dianteira das discussões e da própria votação. O cenário que se cogitava a partir do qual só iria votar quem militava ou tinha algum tipo de afinidade ideológica com a causa parece ter se confirmado. O inverso, contudo, revela talvez a maior novidade e surpresa do processo: os movimentos sociais de direita e os discursos difusos do medo não foram suficientes para levar o eleitorado de direita às urnas. A criminalização da política e a consequente descrença no sistema parecem jogar contra a mobilização das classes médias que, desobrigadas a comparecer às urnas, preferem assumir sua histórica condição de inércia, mesmo em uma temática que costuma solicitá-los passionalmente. Talvez seja o caso de se pensar se, na contramão de certo lugar comum, o voto facultativo não beneficiaria o debate público no Brasil.

Não seria ousado dispor que até mesmo parcela do eleitorado de centro e de direita, quase sinônimos neste momento histórico reacionário, avançou no território desarmamentista por desacreditar na capacidade daquele corpo policial ou no esgarçamento da narrativa conservadora de que o policiamento é a saída mais relevante para o problema da segurança pública.

Cumpre ressaltar, assim, os limites da onda conservadora e do discurso do medo. A direita não conseguiu arregimentar mentes e votos o suficiente, mesmo com tudo ao seu dispor. Niterói seria um marco para a política armamentista, que vem ganhando novo fôlego no país. A derrota pode ter menos significados concretos do que gostaríamos, mas serve para retardar o ataque ao desarmamento no Brasil, renovar os ânimos, diante das sucessivas derrotas da esquerda nos últimos anos, e abrir novas frentes de análise e discussão de conjuntura. Aguardemos agora os desdobramentos desta pequena, porém simbólica vitória.

1 Comentário

  1. Ótimo texto. O Professor mostra-se, em seu texto, um ativista sensato e ponderado. Não deixa de reconhecer as demandas sociais, o contra-ponto, sem que se aponte radicalismos como na realidade são: retrocesso.

Faça um comentário

Seu e-mail não será divulgado.


*