Lula, a crise das esquerdas e as eleições de 2018

Foto: Ricardo Stuckert

Adriano de Freixo

 O Sr. Getúlio Vargas, senador, não deve ser candidato à presidência. Candidato, não deve ser eleito. Eleito não deve tomar posse. Empossado, devemos recorrer à revolução para impedi-lo de governar.

As palavras do jornalista Carlos Lacerda sobre a possível candidatura de Getúlio Vargas nas eleições presidenciais de 1950 soam bastante atuais. Substituindo “Vargas” por “Lula”, elas poderiam estar nas bocas de militantes do MBL, colunistas de grandes jornais, pastores evangélicos ou políticos conservadores. Mas também, por mais paradoxal e estranho que isto pareça, nas de intelectuais e lideranças políticas progressistas que veem num eventual retorno do ex-presidente (e do PT) ao Palácio do Planalto um sério obstáculo à renovação/reinvenção de uma esquerda em crise.

Assim, com a possibilidade real de vitória de Lula nas eleições de 2018, esses setores – aberta ou veladamente – torcem pelo impedimento, via judicial, da sua candidatura, o que abriria espaço para outros nomes do campo progressista – como Marina Silva ou Ciro Gomes – ou da “esquerda renovada”, como Haddad ou Boulos. Com isto, algumas manifestações públicas – em artigos de opinião, debates ou mesmo em redes sociais – de figuras de proa da esquerda crítica ao lulismo acabam, ironicamente, guardando certas semelhanças discursivas com declarações dadas por integrantes da outra ponta do espectro ideológico.

Ora, desde antes de 2013 já se falava da necessidade das esquerdas construírem o pós-lulismo, visto que esse modelo baseado na conciliação e no reformismo moderado – ou “reformismo fraco”, na definição de André Singer – começava a dar sinais de esgotamento, apesar da vitória de Dilma Rousseff nas eleições de 2010. Mas depois das manifestações de junho, essa tarefa ganhou sentido de urgência.  No entanto, está mais do que claro que as esquerdas (notadamente as de viés mais crítico ao PT), por uma série de questões – dentre elas, a leitura sectária e , muitas vezes, descolada do real e a falta de compreensão dos multifacetados sentidos do lulismo -, falharam nessa tarefa, fragmentando-se ainda mais, perdendo-se em intermináveis discussões intestinas e diminuindo sobremaneira sua capacidade de intervenção e mobilização.

O desdobramento disto foi que passamos a ter, de um lado, o petismo cego e acrítico – que após a deposição de Dilma daria origem a uma espécie de “necrogovernismo” -, e do outro, os representantes de uma “esquerda pura” que, no afã de ocupar o vácuo que teria sido deixado pela crise dos governos petistas e do próprio PT, desqualificam os avanços e realizações da Era Lula, com alguns, inclusive, chegando a negar a ocorrência de um golpe parlamentar de 2016. E entre uns e outros, somente algumas poucas vozes lúcidas que vem reiterando seguidamente que é possível criticar os limites do lulismo e do PT, sem, no entanto, negar suas conquistas.

Hoje, com as esquerdas sofrendo derrotas sucessivas em todas as frentes, os setores críticos ao lulismo continuam persistindo em seus velhos erros. Dominados por um antipetismo tosco e pela crença de que podem, quase que automaticamente, ocupar o espaço à esquerda outrora ocupado pelo PT – e que, em parte, continua sendo dele -, não percebem que neste momento, independentemente de qualquer outra coisa, é necessário e fundamental lutar para que o direito de Lula ser candidato em 2018 (se houver eleições) seja garantido. Isto não significa apoiar o ex-presidente ou abrir mão de outras candidaturas à esquerda ou do “campo progressista”. Pelo contrário, elas são necessárias até como contraponto crítico ao lulismo. Porém, apostar que a ausência de Lula do pleito poderia favorecer Ciro, Marina ou mesmo uma eventual candidatura de Guilherme Boulos não é só um equívoco, mas também uma irresponsabilidade.

Nenhuma das candidaturas do “campo progressista” (ampliando para além da esquerda) consegue polarizar com a direita nos setores populares, como Lula polariza. As pesquisas de intenção de voto de diferentes institutos sinalizam, inclusive, o trânsito dos eleitores mais pobres entre ele e Jair Bolsonaro. Neste contexto, assumir o discurso de “Lula sob nenhuma hipótese”, como parte da esquerda tem feito, é pra lá de temerário (sem trocadilho).

Na correlação de forças desfavorável em que estamos, defender o direito de Lula ser candidato também é um instrumento de resistência ao golpe e de manter o enfrentamento com a direita que, de todas as formas, tem procurado impedir que essa candidatura aconteça. Mesmo que seja para depois fazer campanha e votar em Ciro, Marina ou no candidato do PSOL, seja lá quem ele/a for. Além disto, a ausência do nome do ex-presidente na urna eletrônica devido a decisões judiciais controvertidas, para dizer o mínimo, deslegitimaria o pleito e seria mais um ataque ao que ainda resta do nosso combalido Estado de direito.

Ademais, até para a construção do pós-lulismo, a presença de Lula nas eleições – ganhando ou perdendo – é fundamental e estratégica. Há que se compreender que pela história e peso político do PT – mesmo sem a força e a capacidade de mobilização de outrora– não é possível construir o pós-lulismo sem a participação do partido.

Caso o ex-presidente vença o pleito do ano que vem, parece claro que as condições objetivas que permitiram o fenômeno do lulismo na década passada não mais irão se repetir e ou ele se reinventa à esquerda – podendo construir, quem sabe, uma frente nos moldes da ”geringonça” portuguesa – ou será definitivamente varrido e, aí sim, abrir-se-ia um vácuo que, em médio prazo, poderia vir a ser ocupado por outros projetos políticos progressistas (e as duas possibilidades são interessantes). Em caso de derrota, o Partido dos Trabalhadores será forçado a se repensar integralmente e a se “refundar”, como algumas lideranças importantes – Tarso Genro, por exemplo – vêm propondo desde 2005.  Já o impedimento do ex-presidente no “tapetão” só serviria para alimentar o mito e retardar ainda mais a necessária autocrítica – tanto do PT e dos movimentos e partidos em sua órbita, quanto dos setores críticos ao lulismo – sem a qual as esquerdas não conseguirão voltar a disputar a hegemonia na sociedade.

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