Todos os espaços devem ser rentáveis: a transformação da piscina em shopping e a falência do senso de comunidade

Adolescentes sendo apreendidos na piscina do Salesiano - Foto: O Fluminense

Marcos Kalil Filho

No dia 20 de dezembro de 2015, sete jovens negros e pobres, moradores de favelas das imediações do colégio Salesianos, no bairro de Santa Rosa, Niterói, pularam o muro para se refrescar na piscina vazia do enorme complexo esportivo da escola. De acordo com o Instituto Nacional de Meteorologia (INMET), a temperatura estava em 33º com a sensação térmica batendo na casa dos 40º. O que poderia ser mais um episódio de crianças travessas em uma vizinhança ociosa, virou um caso de polícia. Uma denúncia anônima levou um grupo de policiais ao local para a apreensão dos meninos, que foram levados à delegacia mais próxima.

À época, algumas manifestações jogaram luz para o fato de que as instalações esportivas sem uso poderiam ser abertas à comunidade. Tal iniciativa, inclusive, iria ao encontro da própria missão da congregação salesiana, disposta em seu site oficial: “ser sinal e portadora do amor de Deus aos jovens, especialmente os mais pobres […] contribuindo para a construção de uma sociedade justa e fraterna.” Ao contrário, as quadras e outros equipamentos para esportes, costumeiramente trancafiados e vazios, seriam administrados por uma empresa privada com responsabilidade aparentemente integral pelo espaço – e interesses eminentemente comerciais sobre ele.

Curioso que, dois anos depois, a mesma área esteja a ponto de ser cedida para a realização da obra de um shopping center do grupo Lagoon. Segundo a tradicional coluna Gilson Monteiro, o campo de futebol, os ginásios e a piscina seriam postos abaixo para a construção de um centro comercial com cinema e grandes redes.

A congregação salesiana foi fundada em 1859 por São João Bosco, dentro da Igreja Católica Apostólica Romana, tendo sido aprovada pelo Papa Pio IX em 1874 e o Colégio Salesiano Santa Rosa, fundado em 1883, foi a primeira casa salesiana no Brasil. No Brasil, a Inspetoria São João Bosco (ISJB) surgiu em 1947 como uma associação sem fins lucrativos de caráter educativo-cultural, atualmente presente em cinco estados e o Distrito Federal. O colégio sempre se destacou nos esportes, seja em competições locais ou nacionais. O perfil se destacava entre as demais instituições de ensino. Ao olhar para o terreno da escola, a importância do viés esportivo se evidencia espacialmente.

Contudo, a mercantilização do ensino e a lógica do lucro parecem se impor mesmo às características constitutivas essenciais de um corpo social do ramo da educação. Em uma era de novos patamares de alienação, nos quais os métodos de ensino colocam os alunos fechados em sala de aula das 8h às 18h, assistindo a professores entertainers, cujo papel se resume a inventar versões do último hit do sertanejo com fórmulas de química, uma quadra de basquete tem pouco ou nenhum uso. Mais do que isso, as margens de rentabilidade desses espaços seriam muito pequenas, frente ao que se pode fazer em um shopping center ou mesmo uma classe escolar, na qual o objetivo se restringe a preparar corpos e mentes para o consumo (e o que se precisa suportar para participar dele).

Os niteroienses vêm sofrendo com a especulação imobiliária há mais de uma década, antes mesmo do boom decorrente da euforia econômica do governo Lula. A cidade chegou a ter o quarto metro quadrado mais caro do Brasil. As empreitadas do setor de imóveis observavam os interesses das classes mais abastadas, gentrificando e inchando quarteirões específicos do município em detrimento de outras áreas. O Poder Público passou ao menos vinte anos sem investir em habitação popular e a tragédia do Morro do Bumba, de repercussão nacional, em 2010, configurou um marco histórico que pouco alterou a direção dos acontecimentos.

O episódio da piscina e a recente possibilidade de transformação do complexo esportivo do Salesianos em centro comercial se conectam ao mostrar as diferentes facetas da mercantilização da vida. Não há lugar para os “consumidores defeituosos e desqualificados”, como coloca Bauman, o que no Brasil ganha sempre uma conotação racista, e todos os espaços, ainda que seja uma escola religiosa com pretensa missão de assistência social, devem ser organizados em prol do máximo lucro, da máxima produtividade, das oportunidades para que investidores possam fazer seu dinheiro multiplicar-se. A piscina vazia em um dia de calor funcionava como terreno especulativo, esperando a primeira chance de ser capitalizado. A prosperidade de uns se apoia na falência do nosso senso de fraternidade, comunidade e verdadeira educação.

1 Comentário

  1. Oportuna matéria jornalística, arrazoada análise dos fatos. O grande problema nessa parceria reside no fato, acredito que, por total inexperiência, por parte dos SALESIANOS (ISJB), é o fato de estarem se associando a uma empresa cheia de falcatruas e processos judiciais. A tal empresa lagoon, se é que existe de fato, pertence a gente ligadas a inquéritos na Policia Federal, ocupa o Estádio de Remo da Lagoa na marra, Tem nomes ligados a Mossack Fonseca a mesma do Panamá Papers. Até a Família Marinho (GLOBO) já se livrou deles, ordenando que a Paula Marinho, filha do João Roberto fizesse a separação, quando começaram a chegar perto da LAVA JATO. Basta o Depto Jurídico do ISJB, fazer uma pesquisa no GOOGLE (Alexandre Chiapetta de Azevedo // Glem Participações // O MP do Rio move ação para obter de volta todo o investimento público feito no estádio desde então, cerca de R$ 30 milhões, Considera que os concessionários é que deveriam ter pago pelas reformas das quais se beneficiaram). E tem muito mais, incrível acreditar que o Jurídico da ISJB, não fez uma verificação disso tudo antes, esse grupo de Malandros (tal de Glen/lagoon são tão audaciosos que estão movendo processos até contra o Homem mais rico do Brasil, o dono da Ambev. Então, vejam em que canoa furada estão se metendo, imagina se já assinaram algum contrato se comprometendo a ceder o mesmo vender esse pedaço nobre e valioso do Salesianos, e depois por algum motivo haja uma desistência, imaginem?, se já estão investindo algum dinheiro que seja, com levantamentos, estudo de projeto, compromissos de parcerias, imaginem se não há uma Clausula de multa por rescisão? E não deve ser barato, aí a coisa fica feia pros Padres desinformados, e eles tomam tudo, afundando ainda mais a Instituição, quando no mínimo podem deixar tudo travado com Ações Judiciais.
    A tal Governança Moderna dos Liberais Salesianos pode num futuro não muito distante causar é prejuízo pra toda comunidade. É bom ficarem alerta, se é que ainda podem voltar atrás das tolices que podem estar cometendo.

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