Um perigo chamado arte

Exposição "Música Degenerada" organizada pelo regime nazista - Düsseldorf, 1938

Pablo Fontes e Mônica Leite Lessa

Precisamos respirar e compreender as artes. Olhar e ler as literaturas de Guiné Bissau, escutar a música do Mali, aprender o idioma do Uzbequistão, conhecer os museus do Suriname, acessar e enxergar as múltiplas representações (críticas) dos grafites nas cidades. Nas mais diversas áreas, regiões e acessos que temos em mente, existem artes e estéticas que ajudam a repensar/problematizar o mundo. Mas, por que no Brasil de 2017, em uma conjuntura caracterizada pela retirada de inúmeros direitos tão duramente conquistados, as estéticas e artes incomodam tanto? Por que uma peça que fala sobre a história do cristianismo cuja protagonista é uma transexual gera tanto ódio? Por que uma performance sobre o copo humano e a sexualidade apresentada no Museu de Arte Moderna (MAM) no Estado de São Paulo gera tanto espanto e indignação?

A arte existe há milênios. No entanto, por diversas razões espaço/tempo, a cosmologia da arte foi abordada como politicamente sem conteúdo (não detentora da capacidade agência) ou por vezes como uma afronta à moral e à ética. Nós sabemos que por intermédio da arte pode-se enxergar as múltiplas diferenças da sociedade, principalmente, através de enquadramentos diversos que nos permitem refletir/problematizar a realidade. A cultura, a arte e a estética nos permitem uma profunda reflexão sobre as concepções de amigo e inimigo, bem e mal, certo e errado, justo e injusto, moderno e selvagem que foram hierarquizadas, enquadradas, construídas, mantidas e reforçadas no transcorrer do tempo/espaço.

Michael Shapiro (2008) e David Campbell (2003) apontam para a importância da relação entre estética, ética e política. Muitas fotografias, por exemplo, acabam reforçando as práticas de representação de modo padronizado e hierarquizado através de suas formas, estilos, métodos e composições. Porém, segundo os autores desconstruir essas visões padronizadas e hierarquizadas torna-se necessário, principalmente, quando outros significados podem ser construídos, sobretudo, aqueles relacionados a ideias como solidariedade e horizontalidade.

Entretanto, no Brasil, um país que se diz “laico”, “democrático” e que assume o discurso do respeito à liberdade de expressão, cada vez mais se oprime e desqualifica no dia a dia tudo aquilo que rompe com certa moral impregnada de valores religiosos. Mas por que o medo quando o assunto envolve as artes? Parece-nos que isto se deve à possibilidade que as mesmas possuem em despertar nos indivíduos o poder dúvida, o poder da curiosidade. Já nos diziam Adorno e Horkheimer (2005), expoentes da Escola de Frankfurt, que a cultura como a arte fazem parte de um processo de fabricação, venda e estímulo desenfreado para o consumo, mas ao mesmo tempo, quando os indivíduos percebem e compreendem a inércia e a maneira como estão sendo tratados (seres amorfos, coisificados), podem despertar deste sono que se encontram permitindo-se a possibilidade de contestação das questões políticas, sociais, culturais etc.

Há uma arbitrariedade e uma censura quando o tema é arte, cultura e estética. O poder da cultura, da estética e das artes é tão valioso que diversos chefes de estado desde o século XIX, por exemplo, e mesmo no século XX (marcado pelo nazi-fascismo) se utilizaram cotidianamente de mecanismos de publicidade e propaganda para convencer a opinião pública doméstica e internacional sobre certas questões que julgavam/consideravam importantes. Será que essa realidade político-cultural que vivenciamos durante a Segunda Grande Guerra (1939-1945) estaria de volta no Brasil de 2017?

Brasil, país do carnaval, espetáculo impactante que é televisionado para o mundo inteiro: esse não precisa de censura? Não há necessidade do uso das tarjas dizendo o que pode e não pode ser visto? Quão de fato é o limite da arte? É preciso ter limite? Qual o perigo desse limite? Parece-nos que, novamente, uma onda reacionária, xenófoba, racista, sectária volta a pairar em nosso cotidiano que também se encontra presente com bastante força no Congresso Nacional (patrimonialista, clientelista, plutocrático, fisiologismo). É neste cenário que o medo e o risco andam lado a lado e onde o discurso e a prática podem gerar uma onda de mobilização a favor da censura, do ódio, da intolerância, do não diálogo.

A sexualidade apresentada e problematizada pela exposição de arte Queer em Porto Alegre, que recentemente foi fechada, nos aponta para o impacto e para a representação e a importância das artes, das estéticas e da cultura. A conquista da democracia foi tão cara ao Brasil, que a sociedade brasileira não se dá conta do preço e do custo que podem reverberar nessas intolerâncias que sistematicamente vem ganhando espaço, e em certa medida, legitimidade. Prova disso é o recente abaixo-assinado promovido pelo ator Alexandre Frota que já conta com mais de 100 mil assinatura, solicitando que a autora e filosofa Judith Butler não possa ministrar sua palestra no Sesc Pompéia em São Paulo que a reduz à criadora e difusora de uma pretensa “ideologia de gênero”.

O extremismo, a intolerância e o ódio à democracia estão tão presentes no nosso cotidiano que o estado do Espírito Santo, recentemente, aprovou o projeto que proíbe qualquer tipo de exposição, onde se mostre a nudez ou representações do ato sexual. Voltamos à Idade Média? Já podemos queimar os livros? Definimos as obras que podem ou não ser lidas?  Se todas as respostas forem verdadeiras, então o Vaticano não poderá ser visitado porque todas as obras que lá se encontram, especificamente, na Capela Sistina têm pênis para todos os lados.

O mais assustador é que esse panorama que estamos vivenciando no Brasil reflete em certa medida o que se observa no restante do mundo,  cada vez mais marcado por infinitas complexidades e cujas diversas realidades foram e são construídas a partir das artes. As composições das imagens que varrem o planeta através dos meios de comunicação (fotografia, peças publicitárias, fotojornalismo, cinema etc) produzem uma variedade de violências que são naturalizadas a todo instante. Os efeitos de verdade dentro dessas narrativas mobilizam a doxa internacional. As maneiras como são constituídas essas artes na ontologia tempo/espaço fazem com que a opinião pública tenha uma visão, por vezes, unidirecional e estática sobre o internacional. É essa unidirecionalidade que mora o perigo e o risco, sobretudo, quando à pauta é a democracia.

Referências Bibliográficas

ADORNO, T; HOKEHEIMER, Max. Indústria Cultural e Sociedade. Rio de Janeiro, Editora: Paz e Terra, 2005.

CAMPBELL, David. Salgado and the Sahel- Documentary Photography and the Imaging of Famine In DEBRIX, Francois; WEBER, Cynthia. Rituals of mediation : international politics and social meaning. USA: University of Minnesota Press, 2003.

SHAPIRO, Michael. Slow Looking: The Ethics and Politics of Aesthetics. Millennium – Journal of International Studies, 2008.

 

*Pablo Fontes é jornalista, mestre em Relações Internacionais pela UERJ e doutorando em Relações Internacionais na PUC-Rio e Mônica Leite Lessa é Doutora em História pela Universidade de Paris X e Professora do Departamento de Relações Internacionais da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ).

.

Seja o primeiro a comentar

Faça um comentário

Seu e-mail não será divulgado.


*