Nem esquerda, nem direita: ecos de 2013 no #ForaPicciani

Foto do autor. “Políticos canalhas”: odiado por todos que não integram seu grupo político, Picciani atrai contra si quase a integralidade do espectro político-ideológico, mas onipresença do discurso moralista pode indicar o que realmente está em jogo.

Marcos Kalil Filho

Uma senhora tijucana de 70 e poucos anos conversa com um policial militar. Parecia dar uma bronca e segurava, com as mãos para trás, sua pequena bolsa e uma bandeira do Brasil. Os olhos verdes, o trato fino e os brincos de pérola faziam-na destoar da multidão. Ao fim do papo com o agente, me aproximei curioso e trocamos uma ideia. Ela estava lá para “defender a aposentadoria atrasada do marido de 84 anos” e a demonstrar o repúdio à recente demissão de sua filha, que trabalhava há 17 anos na Peugeot – “foi levada por seguranças até a porta”. Dizia-se orgulhosa de estar empunhando um “verdadeiro pavilhão dos expedicionários de 1932” e refutou a ligação com qualquer movimento político. Espontaneamente, atacou as feministas: “Eu entendo o feminismo de outra maneira. Veja se tem alguém aqui pedindo mais policiais mulheres? Ou se estão aqui na linha de frente como eu?”

O “Ato pela confirmação da prisão de Picciani” ocorreu hoje (17/11) entre o meio dia e as 16h, quando a polícia, como de costume, encerrou a manifestação com bombas e tiros de borracha. Puxado tanto pelo PSOL, oposição ao PMDB na Assembleia Legislativa, como pelo MBL, o protesto reuniu coletivos que gravitam em torno do eixo psolista, bombeiros, policiais civis, delegados, conservadores verdeamarelos e lideranças dos movimentos sociais de direita. Até o famigerado Batman das Jornadas de Junho deu as caras e juntou muitos simpatizantes.

Fotos do autor. À esquerda, a senhora dialoga com um policial militar, empunhando a “bandeira dos expedicionários de 1932”. À direita, o Batman pede “justiça para todos”, lema da Lava Jato, e atrai simpatizantes verdeamarelos.

Não se tratava propriamente de uma multidão. Imprudente seria dar uma de DataFolha, ou até mesma da PM, e arriscar um número, mas o evento encontrava-se esvaziado. Havia um caminhão de som, que servia de palanque para quem quisesse falar. Na primeira metade, discursos da esquerda dominaram a cena. O público, no entanto, parecia mais interessado na confusão gerada pela quase prisão de um delegado abordado por um policial militar ao tentar soltar fogos perto do Edifício Garagem Menezes Cortes. Durante quinze minutos, imprensa e transeuntes se aglomeraram para entender o empurra-empurra.

Após a dispersão, o viés de direita da manifestação ficou mais evidente. Se os manifestantes com bandeiras verdeamarelas, segurando bonecos do Super Moro ou fantasiados de “Luladrão” sumiam por debaixo dos bandeirões dos grupos de esquerda, a subida de suas lideranças no trio elétrico jogaria luz sobre o diálogo conservador entre as forças presentes. Um rapaz forte, de cabeça raspada e enrolado em uma bandeira do Brasil gritava que ali não importava se éramos de direita ou de esquerda: “Mesmo sendo de direita, somos todos irmãos e, hoje, sairia preso para defender cada um de vocês”, bradou ele.

À esquerda, senhora segura um Super Moro. À direita (superior), manifestante se fantasia de “Luladrão”. À direita (inferior), Sara Winter discursa no carro de som.

Um senhor de jaleco branco, apresentando-se como médico do Hemorio, pediu que todos os contrários à corrupção levantassem as mãos, no que foi prontamente acolhido. Em seguida, a youtuber “antifeminista” Sara Winter tentou discursar no microfone, mas enfrentou vaias pesadas e gritos de “Fascista!”, sobretudo de um grupo ao redor do vereador do PSOL, Babá. A organização do ato, supostamente de esquerda, a todo momento alertava o público nas caixas de som a um pretenso intuito suprapartidário e pan-ideológico para tentar viabilizar as falas das lideranças direitistas, sem muito sucesso.

Perto das 16h, a notícia de que uma liminar havia sido entregue ao plenário da Alerj para assegurar a entrada da população nas galerias animou alguns presentes. Estes pareciam esquecer que o mesmo havia ocorrido durante a privatização da Cedae e em nada alterou o acirrado regime de segurança da casa. Coube a uma verdeamarela ao berros convocar os protestantes a avançar sobre a Assembleia para garantir a entrada e a pressão sobre os deputados. Àquela altura, o povo já estava nas grades, mas parecia obedecer aos clamores da organização que utilizava o microfone para esfriar os ânimos: “Segura aquele ali!”, vociferou um organizador pelo microfone, apontando para o grupo de bombeiros que tocava instrumentos ao lado do Batman.

A quantidade de policiais impressionava. Os agentes de segurança estavam cuidadosamente posicionados por todos os lados, cercando as saídas possíveis. Um grupo de quinze policiais, inclusive, estava destacado na Rio Branco, enquanto um caveirão ficava estacionado na Rua São José e um caminhão de jatos d’água, no Largo do Paço. Quando a votação se encerrou, antes das 16h30, as bombas foram lançadas, encerrando o ato.

Foto do autor. PMs bloqueiam a Rua da Assembleia pouco antes das bombas serem lançadas.

Se a unanimidade em torno da necessidade do fim da vida pública de Picciani torna a adesão a um movimento pela sua prisão quase que um automatismo, faz-se imperiosa uma reflexão menos apaixonada. O avanço penal contra o presidente da Alerj se insere no quadro de hipertrofia do Judiciário decorrente da Lava Jato e do golpe. Além disso, representa uma etapa do conflito das elites políticas pelo comando do Estado do Rio de Janeiro, cuja cadeira estará vaga, no mais tardar, ao final de 2018. Abre-se uma janela, sem dúvidas, para embaralhar o cartel dos transportes e enfraquecer atores políticos históricos do cenário fluminense. Contudo, uma oposição sem capacidade de mobilização de massas, promotora de atos burocráticos e afeita ao discurso conservador-moralista não caminha na direção necessária para uma vitória no longo e, ainda menos, no médio (ou curto) prazo. Os ecos de um 2013 inocente e apartidário foram ouvidos no dia de hoje.

 

 

Seja o primeiro a comentar

Faça um comentário

Seu e-mail não será divulgado.


*