A direita cristã no Brasil e nos EUA e sua contraditória moralidade

A partir da criação de uma espécie de estado de bem-estar social ianque, em meados dos anos 60, a direita empresarial dos EUA vem trabalhando duro para reverter o rumo e os objetivos de tais políticas. Uma grande guinada neste sentido, após 30 anos de conquistas sociais  iniciadas com o New Deal rooseveltiano,  foi a chamada “estratégia sulista” de Nixon, no início dos anos 70, quando o Partido Republicano se consolidou como a agremiação política de preferência dos sulistas ressentidos com os avanços das políticas antidiscriminação racial implementadas por Kennedy e, especialmente, Johnson nos anos anteriores. Desde então, os Democratas têm tido enormes dificuldades para ganhar votos na maioria dos estados do Sul dos Estados Unidos.

Um enorme reforço na consolidação dos Republicanos na região foi dado nos anos 80, quando Reagan, com sua política de desmonte do estado de bem-estar social, se aliou à chamada Direita Cristã, composta fundamentalmente por pastores neopentecostais, em sua maioria de igrejas baseadas no chamado sul profundo, ou seja, as partes mais rurais e conservadoras dos estados do sul. Assim, de maneira oportunista, o ex-ator de Hollywood, que não partilhava em muitos aspectos da agenda moralista e conservadora desses líderes religiosos, delega a agenda social e, especialmente, a lógica das campanhas políticas ao discurso anti inclusão social e retrógrado dos televangelistas que se tornaram assim uma base de peso do Partido Republicano até os dias de hoje.

Interessantemente, o atual presidente acabou encontrando apoio em eleitores dessa filiação moral e política, apesar de alguns líderes religiosos terem se oposto candidatura de Donald Trump, alguém que certamente não poderia ser visto como tendo vivido uma vida exemplar do ponto de vista da moral cristã conservadora. Isto se deu, basicamente, porque a maior parte dos grupos religiosos conservadores está interessada, antes de tudo, em garantir a indicação de juízes identificados com seu ideário para a Suprema Corte, assim como para os tribunais federais. Desta forma, como um pacto fáustico, líderes e membros da Direita Cristã acabaram sacrificando sua própria moral pelo objetivo de garantir que decisões jurídicas de viés conservador ganhem força no país. Os limites da coerência ética de grande parte desses eleitores foi também revelada de modo claro ao longo das últimas semanas, quando muitos deles mantiveram o apoio à candidatura ao senado pelo Alabama de Ray Moore – o juiz conservador que em 2015, como chefe da justiça daquele estado, se recusou a cumprir a decisão sobre a autorização para a união de casais homossexuais –, apesar das várias denúncias de assédio sexual contra o candidato.

De maneira similar, ao longo dos últimos 25 anos, temos visto o crescimento acelerado da população neopentecostal no Brasil, em grande parte por meio das mega igrejas que atuam de maneira muito assertiva na propagação de sua mensagem via mídia, em especial a televisiva. Esse processo, de maneira similar ao ocorrido nos EUA – de onde muitas das igrejas tupiniquins passaram a receber conselhos operacionais, especialmente na área de marketing – não ficou, de modo algum, restrito à esfera da moral ou religiosidade pessoal. Com efeito, ao longo dos últimos cinco ciclos eleitorais, a bancada evangélica passou a ser uma das mais influentes e decisivas no Congresso, assim como em várias casas parlamentares estaduais, em especial no Rio de Janeiro, onde agora dispõe também do controle da prefeitura da capital do estado.

Assim, em grande medida, pode-se dizer que hoje também dispomos de uma Direita Cristã. Em nosso caso, não restrita somente à ingerência sobre um único partido, mas sendo capaz de influenciar todo o espectro político. Isto se revelou decisivo no processo de impeachment de Dilma Rousseff, no ano passado, que teve como figura de proa o presidente da Câmara Federal, o deputado carioca Eduardo Cunha, um dos mais ativos membros da bancada evangélica. A partir de então, tal bancada passou também a integrar, de forma mais expressiva, o Executivo, onde participa da formulação de pautas de cunho moralista e reacionário nas áreas social, cultural e educacional. De fato, apesar das mesmas não estarem restritas aos seus apoiadores, correligionários e membros, a bancada evangélica vem ajudando de maneira chave a formular as propostas da chamada “Escola Sem Partido”, com seus ataques à “doutrinação política” e  à “difusão da ideologia de gênero” que pretensamente ocorreriam nas escolas brasileiras. Da mesma forma,  ela teve papel decisivo na recente aprovação por uma comissão especial da Câmara de Deputados da revisão na já super restritiva legislação sobre o aborto.

Embora tais posições possam ser vistas como sendo coerentes com uma visão de mundo conservadora, alinhada com a posição moral de várias destas igrejas, cabe lembrar que um enorme contingente de membros dessa bancada – começando pelo próprio Eduardo Cunha – estão envolvidos em alguns dos muitos dos escândalos de corrupção que vieram à tona nos últimos tempos. Revela-se, assim, de maneira clara, o caráter contraditório, ou mesmo hipócrita, dos principais líderes das mega igrejas tupiniquins, que, a exemplo de seus parceiros norte-americanos, não hesitam em rapidamente sacrificar muitos de seus supostos princípios por ganhos imediatos, sejam pessoais ou coletivos.

 

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