Bolsonaro, o tripé macroeconômico e a democracia apequenada

Em entrevista à jornalista Mariana Godoy, em 27 de outubro, o deputado Jair Bolsonaro, não soube o que responder quando perguntado sobre o tripé macroeconômico. Não tinha opinião, não sabia do que se tratava, e, sem muita cerimônia afirmou que não precisava conhecer economia, da mesma forma que não precisava ter conhecimentos médicos. Teria uma equipe econômica que decidiria. Não é exagero de colunista militante. Quem não assistiu à entrevista, pode acessá-la aqui.

O deputado candidato é um veterano no Congresso Nacional. Apesar de ser defensor da ditadura e da tortura, ganha a vida graças ao regime democrático que temos. Ele e seus três filhos. Há um quarto de século no Congresso, aprovou somente um projeto, e, não deixa de ser irônico que tenha sido um projeto visando dar garantias ao processo eleitoral. E é isso. No mais, sua atuação está de acordo com sua estatura e seu pensamento. Sempre em partidos de pouca expressão, fez parte de coligações governistas sem ter atuação propositiva. Ao contrário, quando deixou de ser apenas um pária no Congresso e passou a se articular com bancadas fundamentalistas – garantindo escandalosos conflitos na Comissão de Direitos Humanos e ampla cobertura da mídia – passou a atuar para impedir o avanço dos direitos de minorias. Uma atuação parlamentar às avessas. Assim, sendo antidemocrático por formação, tudo se encaixa e faz sentido no percurso do deputado que se elegeu desde o início prometendo lutar por salários das corporações militares – promessa que jamais poderia cumprir, carecendo de articulação política e sem pertencimento a bancadas com poder.

Nada disso explica que um parlamentar que passou pela abertura econômica, pelo Plano Real, pela revisão da regulamentação dos juros inscrita na Constituição, pela liberação do câmbio, pelas crises cambiais e acordos com o FMI, pelo estabelecimento de metas como formas de controle da inflação, e pela discussão sobre a independência do Banco Central não conheça o tripé macroeconômico e as suas implicações. Se ele esteve no Congresso na era FHC, quando os debates com a oposição do PT eram substantivos, ele não participou. Se omitiu. Deixou seu eleitor sem representante para intervir nos temas que de fato afetavam suas vidas, seus salários, os serviços públicos e benefícios sociais. Talvez se preparando para lutar contra direitos das mulheres ou da comunidade LGBT. Ou talvez porque, quem sabe. seus eleitores sejam mais afetados em suas vidas por comportamentos de natureza privada dos indivíduos.

O que perderam e perdem eleitores de Bolsonaros? Perdem a chance de discutir e compreender por que um país rico em recursos naturais e com mercado não desprezível não se desenvolve, tem renda per capita baixa e tem figurado internacionalmente como campeão em desigualdade e violência. Por que não desenvolvemos tecnologias e importamos tudo? Por que temos dependência crônica de capitais externos, sempre devedores de dívidas impagáveis? Por que nossa dívida não se transformou em desenvolvimento, educação e oportunidades? Afinal, para além das escolhas e características dos indivíduos há um país com instituições e arranjos econômicos que nos impõem uma condição de vida muito aquém daquela que seriam ideais para exercermos nossas liberdades e potenciais.

Quando Bolsonaro afirma que cabe ao seu ministro decidir sobre câmbio flutuante, meta de inflação e superávit primário, ele não está apenas demonstrando sua ignorância inexplicável, mas dizendo para os seus eleitores que as decisões mais importantes para o país serão terceirizadas. Não será novidade. Temos vivido essa terceirização com efeitos graves em termos de diminuição da democracia e do poder de decisão dos mandatários do povo. Quem assume é o mercado, por meio de indivíduos como Meirelles. Eles não devem nada à nação, só ao mercado. Um presidente com compromissos a cumprir pode até constrangê-los, dividir com eles o poder para satisfazer o mercado. Um presidente que decidiu ignorar o desenvolvimento e a nação será somente um símbolo decorativo de uma caricatura de democracia.

O câmbio flutuante nos torna vulneráveis aos ajustes monetários da moeda internacional de trocas, o dólar. Quando interessa aos Estados Unidos, a moeda é depreciada. Nossa indústria sofre com os preços competitivos dos importados e diminui de tamanho, com impactos sobre o emprego e a renda. Se se deprecia o câmbio, favorecendo a produção local, o custo dos importados se eleva com impactos na inflação, o que provoca a imediata histeria da mídia – o poder que decidiu resumir a pauta econômica em inflação de acordo com os interesses de seus patrocinadores globais.

A meta de inflação é perseguida com taxas de juros de um Banco Central cego aos custos fiscais do gasto financeiro. Ele aumenta juros para a alegria dos rentistas e cria processos recessivos difíceis de serem revertidos. Seus comitês de agentes do mercado comandam e nós pagamos a conta, à revelia do presidente – nosso mandatário. Nos jornais, a inflação baixa é comemorada em nome do consumidor. 5% a mais de inflação escandalizam, derrubam presidentes, mas uma recessão que deixa 14% de desempregados não é problema. Mas como dissemos, derrubar a inflação tem um custo elevadíssimo. Os juros aumentam a dívida pública, que é paga com uma arrecadação diminuída pela recessão.

Não bastando a desindustrialização, o custo financeiro das metas de inflação e a recessão, o tripé preconiza um superávit primário. Portanto, para pagar a conta é preciso cortar gastos. Não os financeiros, por óbvio, mas os investimentos do Estado (muito baixos no Brasil), os serviços (saúde, educação, infraestrutura, segurança, moradia) e, como o inferno não é o limite, as tesouras chegaram aos benefícios sociais, salários e aposentadorias. E notem, de joelhos implorando investimentos ou compradores do patrimônio público, governantes sem compromissos populares estão à mercê do empresariado que aumenta suas apostas num jogo de chantagens e exige mais benefícios, desonerações, perdões de dívidas e tudo que couber na imaginação.

São tantos os temas que deviam ser tratados com os eleitores cidadãos e têm sido omitidos, trocados por acordos de gabinetes, tantas as decisões tomadas sem que a população possa participar, e há tantos anos, que deve parecer normal um candidato cuja pauta é a defesa da família. Mas ainda que mal pergunte, defesa contra o quê? Alguém é contra a família? Neste perfil, só me ocorrem os fundamentalistas e o próprio deputado que são contra a família dos outros. Enfim… Pauta moralista e escândalos são muito pouco, ou deveriam ser, mas mostram como nossa democracia retrocedeu nos últimos anos, como decorrência da gravíssima despolitização e da desmobilização popular.

Para os eleitores jovens que são contra tudo o que está aí, que não têm a memória de anos anteriores, cabe refletir sobre o fato de que Bolsonaro não é contra tudo que está aí. Tudo que está aí o alimenta e a seus filhos há décadas. Escândalos, moralismos, fundamentalismos e palavras de força são apenas a única forma que ele encontra para manter algum espaço na mídia e mobilizar a indignação de novos eleitores. Ele não tem pauta ou projeto porque é pura ignorância. Que o digam os 25 anos de Congresso e o desconhecido tripé.

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