O Trágico Autoritarismo das Classes Médias

Rafael R. Ioris

Refugiado desde meados dos anos 1930 nos Estados Unidos, o psicólogo social alemão Erich Fromm publicou, em 1939, o famoso livro O Medo à Liberdade onde analisa o substrato sócio-psicológico que teria desempenhado um papel central na possibilitação do crescimento do movimento Nazista. Segundo o influente estudioso, frente à atomização crescente dos seres humanos, criada pela desestruturação do ordenamento social coletivista tradicional, fruto do processo de mercantilização e massificação do consumo próprio do capitalismo monopolista, os indivíduos não mais se sentem partícipes de um todo que lhes ofereça sentido à sua existência, para além do papel de consumidor.

Diante dessa nova realidade cambiante, tentando fugir do estado de alienação crescente, um grande número de pessoas passa a buscar no envolvimento em grupos coletivos messiânicos, especialmente os liderados por líderes carismáticos, um possível reencontro com um sentido coletivo, perdido e irrecuperável, para suas existências atomizadas. Dado seu estado de frustração e ressentimento crescente, tais indivíduos, especialmente os das classes médias, crescentemente conservadoras dada sua sensação de perda do seu lugar supostamente privilegiado no mundo, seriam cada vez mais receptivos à noção de uma submissão plena às tarefas e ideário de tais movimentos, a despeito, e talvez mesmo por causa, de seu caráter autoritário e discriminatório.

Apesar de seu caráter datado, essa reflexão me parece útil para ajudar a entender muito do que ocorre no mundo de hoje, em várias partes do globo, inclusive na terra brasilis, especialmente no que se refere ao crescimento, ao longo dos últimos dois ou três anos, de movimentos neopopulistas de direita, sejam eles neofascistas, racistas ou não. De fundamental relevância, ressalto o valor da noção, proposta por Fromm, de que em períodos de transformações amplas e impessoais, sentidas como incontroláveis e desestruturadoras do ordenamento normal da vida, as classes médias, ou médias baixas, tendem a apoiar movimentos salvacionistas que prometem um retorno à ordem perdida, e que nesse processo, cada vez mais, esses grupos relevariam seu caráter conservador, preconceituoso, arrogante e opressor.

Essa caracterização certamente se aplica ao caso da ascensão de Trump nos Estados Unidos, assim como ao movimento neoconservador que aflorou de modo loquaz no Brasil nos últimos tempos. De fato, se nos anos 1950 e início dos anos 1960, frente ao processo de urbanização acelerada e mudanças sócio-econômicas históricas, os movimentos de massa eram chefiados por lideranças populistas que prometiam e, em algum grau, concretizavam um maior grau de inclusão, vemos hoje que, em linhas gerais, a novidade, em termos de mobilização coletiva, tem sido provida por movimentos de viés reacionário, defensores de pautas exclusivistas (não igualitárias), quando não preconceituosas e racistas, sob fortes ecos de um passado autoritário que criamos termos sido capazes de superar.

Quase tão trágico quanto a erosão da emergente democracia alemã criada pela jovem República de Weimar, as classes médias e médias baixas brasileiras, especialmente as historicamente mais privilegiadas do centro-sul do país, também vem revelando seu caráter autoritário e preferência pela destruição da também jovem democracia tupiniquim, uma vez que isso foi visto como necessário para impedir o que fora entendido como a erosão do seu status social relativo, frente à ascensão, também relativa, de grupos historicamente excluídos, vistos pelos primeiros como não merecedores de participar do corpus público, senão como cidadãos de segunda ou terceira classe. Como ocorreu com as classes médias alemãs dos anos 30, a tragédia se agrava dada a falácia de que a ameaça aos seus privilégios viria de baixo, ou seja, por uma pequena ascensão dos trabalhadores, enquanto, de fato, as verdadeiras elites tradicionais continuam dotadas da sua posição de benefícios inacessíveis e intocáveis.

Temos de fato, visto que, frente a uma muito incipiente mas, ainda assim, tida como ameaçadora alteração no ordenamento social tradicional, especialmente no que se refere às tradicionais hierarquias de classes e raça, em uma das sociedades mais injustas e racistas do mundo, segmentos crescentes das classes médias e, trágica e ironicamente, médias baixas, passaram a adotar um discurso anti-inclusão, antidemocrático, quando não abertamente racista e protofascista (em prol de uma república de promotores ou de uma ditadura militar), revelador do substrato autoritário fortemente ainda presente, e hoje preocupantemente crescente, da sociedade brasileira.

As manifestações concretas de tais discursos tem sido várias, desde o messianismo das igrejas neopentecostais e do salvacionismo mano dura de líderes como Bolsonaro até o neoliberalismo redivivo juvenil de grupos como o MBL, cujo reacionarismo moral e racismo causaria medo aos seus próprios oráculos (como Misses e Hayek). Em comum, há a defesa do retorno a uma sociedade hierarquicamente organizada (no nosso caso, de castas), onde cada um deve saber, e nunca esquecer o seu devido lugar no todo social.

Assim, ecoando os tambores do coletivismo fascista dos anos 1930, enquanto as verdadeiras elites continuam em seus tradicionais lugares de privilégio, avançamos, em grande parte fruto do autoritarismo das nossas classes médias, na destruição do que foi até agora nossa mais promissora experiência democrática, sem nos darmos conta das graves consequências de tal processo.

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