Os “Erros” do Banco Mundial, as Eleições Chilenas e o Golpe no Brasil

Leonardo Valente*

No último fim de semana, boa parte da mídia nacional e internacional  repercutiu a  matéria publicada no Wall Street Journal, no dia 13/01, em que o economista-chefe do Banco Mundial, Paul Romer, reconheceu que o banco divulgou dados falsos sobre a economia chilena em anos recentes. Assim, a mesma instituição internacional que recomendou a privatização na prática de todo o ensino universitário no Brasil, com a cobrança de mensalidade nas universidades públicas, foi a que FRAUDOU relatórios de competitividade mundial, alterando a posição do Chile para prejudicar internamente o governo de Bachelet.

O Banco Mundial manipulou os dados daquele país para favorecer o direitista Sebastian Piñera – que foi o vitorioso no segundo turno das eleições presidenciais chilenas ocorrido em 19 de dezembro – e, pelos depoimentos que apareceram neste escândalo, é quase certo que outras manipulações com objetivos políticos tenham ocorrido na América Latina, por décadas. Certo, também, é que diante do revelado, nenhum dado divulgado pelo banco sobre Brasil, Venezuela, Argentina e outros tantos pode ser levado a sério, não por gente séria.

A recomendação do banco sobre as universidades brasileiras não é apenas frágil e equivocada, como muitos apontaram. Diante desse escândalo, tem mais força a versão de que é mal intencionada e motivada por interesses danosos ao nosso país.

Assim como o FMI, com seu longo histórico desabonador, o Banco Mundial joga sujo na região para evitar que governos com viés autônomo permaneçam ou cheguem ao poder, não restam mais dúvidas. Se foi com o Chile, por que não com os outros? Para a América Latina, o projeto é o de facilitar sempre que possível o domínio de parte das elites comprometidas com a dependência e a submissão. O mesmo fazem as agências de risco, investem pesado na mentira calhorda do grau de confiança, que é baseado em política e em preceitos de dominação, muito mais do que em dados objetivos.

Aos poucos, o golpe mostra, com provas, suas áreas de interseção entre o interno e o externo e é impressionante ver como muitos especialistas e mesmo setores progressistas ainda fazem ouvidos de mercador para os fatos. É o tipo de gente que primeiro chamava de loucura a ideia de que Kennedy quis invadir o Brasil nos anos 1960, mas diante dos documentos, passou a afirmar “queria, mas não invadiu, o golpe foi feito todo aqui”. Enquanto não entendermos a política de poder internacional e sua comunicação com nossa dinâmica interna, continuaremos irrelevantes e fazendo papel de idiotas.

*Leonardo Valente é jornalista, Doutor em Ciência Política (IESP-UERJ) e Professor de Relações Internacionais da UFRJ.

 

 

1 Comentário

  1. Realmente, o “desconhecimento” das conexões do externo com o interno precisa ser bem explicado. Se se ignora o óbvio, alguns bons motivos para isso existem. É interessante lembrarmos como alguns termos úteis foram saindo de cena: imperialismo desapareceu, o que conta é a “globalização”; soberania, só se for compartilhada com quem entende do assunto, então acabou; internamente, camponeses já foram extintos, só existem “trabalhadores rurais”; “políticas sociais” são coisas de comunistas, o que importa é o “empreendedorismo”. De fato, não dá para ficar fazendo papel de idiota.

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