Um continente em transe: as eleições de 2018 na América Latina

Danillo Bragança e Julie Guedes

2018 será um ano de importantes processos eleitorais em toda a América Latina. Até dezembro, Paraguai, Colômbia, México, Costa Rica, Venezuela e Brasil escolherão seus novos dirigentes em eleições presidenciais e legislativas. O ciclo geral de realinhamento de governos mais progressistas termina definitivamente com o fim do mandato de Michelle Bachelet no Chile, sendo substituída em março por Sebastián Piñera, vencedor das eleições de dezembro, à frente de uma coalizão conservadora. Este novo ciclo mais à direita, que tem como representantes Maurício Macri na Argentina e Michel Temer no Brasil, enfrentará assim seu primeiro grande ano eleitoral.

Como pano de fundo de um cenário bastante aberto e, ao mesmo tempo, pantanoso, a CEPAL (Comissão Econômica para a América Latina e o Caribe) aponta que o quadro geral é de baixo crescimento econômico para esse ano, puxado pelo crescimento previsto do Brasil, que ficará na casa dos 2%. O recuo da esquerda por todo o continente e o avanço de governos mais inclinados à direita são, em parte, consequência da crescente descrença pelas instituições democráticas na região, mas refletem também a crise econômica que estão atravessando, sobretudo, Brasil e Argentina.

O desemprego, no entanto, não cede. E se a agenda fiscal destes dois países têm seguido à risca a cartilha neoliberal, os temas mais fundamentais da renda e do progresso econômico com participação das classes sociais mais pobres, talvez seja a pedra no sapato da direita na América Latina.

Há chances, como no México, que se elejam presidentes mais progressistas e quebrem com a tendência que se projeta para a região. No entanto, o horizonte é que não sejam muitos. Andrés Manuel Lopez Obrador, no México, lidera uma frente de partidos mais à esquerda, e conta com chances razoáveis nas mais recentes pesquisas. Os partidos tradicionais do país ainda se articulam em torno de suas candidaturas, mas o processo certamente será bastante disputado. A renegociação dos Acordos de Livre Comércio com o Canadá e os Estados Unidos será crucial neste quadro.

Na Colômbia, os acordos de paz são um tema decisivo para aquele que pretende ganhar a maioria do eleitorado. Rechaçados por parte significativa da população os acordos de paz mudam substancialmente o cenário atual do país, e o próximo presidente precisará ser capaz de manobrar politicamente a insatisfação popular para conseguir dar continuidade ao processo. As eleições legislativas estão marcadas para 11 de março, enquanto a cadeira presidencial se disputará entre maio e junho de 2018. As disputas entre uribistas e moderados promete ser acirrada, com Sergio Fajardo, de uma coalizão de partidos de centro-esquerda, liderando as pesquisas. Importante ressaltar que esta será a primeira prova do recém-formado Força Alternativa Revolucionária do Comum, partido que se organizou após o armistício das FARCs, no ano de 2017. O ex-líder guerrilheiro Rodrigo Londoño será o candidato do novo partido.

A recente condenação do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva alterou drasticamente o cenário no Brasil. Há ainda muita incerteza no horizonte. É importante visualizar alternativas à Lula neste momento, e que estejam mais alinhadas aos movimentos sociais e as demandas da população, solapadas no golpe e no governo de Michel Temer. A bagunça geral em que se encontra o país produziu distorções como Jair Bolsonaro, que descolou dos outros candidatos e ocupa a segunda colocação, bem atrás de Lula, que levaria, se candidato, no primeiro turno. Outros pré-candidatos como Geraldo Alckmin, Marina Silva, Ciro Gomes e Manuela D´Ávila parecem tentar ocupar este espaço ainda em aberto.

No Paraguai, a hegemonia colorada tenta se manter com o senador Mario Abdo Benítez. Efraín Alegre, da antiga Frente Guazú, um bloco alinhado ao ex-presidente Fernando Lugo, destituído em golpe parlamentar, é seu principal contendor. Na Venezuela, os embates entre a Assembleia Constituinte instituída por Nicolás Maduro e grupos oposicionistas devem retornar, e este talvez é o quadro mais incerto. O número grande de venezuelanos fugindo do país é uma incógnita em relação ao processo eleitoral, e é possível que Maduro manobre as eleições para aproveitar este hiato temporal, entre os primeiros meses deste ano, aproveitando a demora no registro eleitoral no exterior. Há chances de que as eleições ocorram em 30 de abril. Na direita e na esquerda, no Paraguai e na Venezuela, enviados da Unasul e da União Europeia acompanharão as eleições.

Há também em todos os países, uma constatação quase inacreditável: a ausência de mulheres com chances reais de vitória para ocupar as cadeiras presidenciais. No Brasil e no México, lideranças indígenas femininas têm sido cotadas para participarem das eleições, mas as chances são ínfimas. Marichuy Patricio, líder indígena mexicana, lança sua candidatura de forma independente quando, pela primeira vez no México, poderão participar candidatos sem vínculo partidário. Apesar de alguns nomes surgirem nos cenários eleitorais, a baixa participação de mulheres na política em todo o continente ainda é surpreendente. Contextos de crise podem diminuir ainda mais a confiança do eleitorado nas candidatas, o que demonstra que quando o assunto é resolver problemas de ordem econômica e política é na figura masculina que se deposita confiança, rejeitando prerrogativas identificadas como femininas na resolução de conflitos.

Por fim, o que se observa é a continuidade de sistemas eleitorais excludentes e a inexistência de candidatos que verdadeiramente dialoguem com os anseios populares. A América Latina permanece sem importantes lideranças que representem de fato seu povo de origem indígena e negra, perpetuando-se no poder elites brancas que jamais fizeram algo além de sangrar as veias abertas da América Latina.

*Danillo Bragança é mestre em Relações Internacionais pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro, doutorando em Ciência Política pela Universidade Federal Fluminense e Professor das redes pública e privada do estado do Rio de Janeiro, nos ensinos básico e superior.

** Julie Guedes é graduanda em Relações Internacionais na Universidade Federal Fluminense (UFF).

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