A chama que o ódio não apaga: o samba do Império Serrano que desafiou a ditadura

Adriano de Freixo

No carnaval de 1969, o Império Serrano, uma das mais tradicionais escolas de samba do Rio de Janeiro, entrou na avenida com um enredo homenageando aqueles que lutaram pela liberdade ao longo da história do Brasil. Dos participantes dos movimentos nativistas do período colonial aos pracinhas da Força Expedicionária Brasileira, passando pelos homens e mulheres livres de Palmares e pelos combatentes das lutas independentistas, abolicionistas e republicanas, os inúmeros e muitas vezes anônimos Heróis da Liberdade foram rememorados e exaltados nesse histórico desfile.

Só que naquele fevereiro, pouco mais de dois meses após a decretação do AI-5 pela ditadura dos generais, cantar a liberdade adquiria um caráter altamente subversivo. E alguns dos versos do samba de Silas de Oliveira, Mano Décio e Manoel Ferreira – considerado por muitos o mais bonito samba-enredo da história do carnaval carioca – reforçavam esse viés de contestação, parecendo remeter às grandes manifestações contra o regime ditatorial ocorridas ao longo do ano anterior: “Ao longe, soldados e tambores/ Alunos e professores/ Acompanhados de clarim/Cantavam assim:/ Já raiou a liberdade/ A liberdade já raiou/Esta brisa que a juventude afaga/ Esta chama que o ódio não apaga pelo universo/ É a (r)evolução em sua legítima razão”.

Tal “subversão” não passou despercebida aos cães de guarda do regime: para ter o samba liberado, os compositores tiveram que alterar a letra, substituindo “é a revolução em sua legítima razão” por “é a evolução em sua legítima razão”. Além disto, Silas de Oliveira e Mano Décio foram chamados ao temido DOPS para prestar esclarecimentos sobre o pretenso “teor subversivo” do samba. Lá, ao ser questionado por um militar sobre seus versos, Silas teria respondido “Eu não tenho culpa de retratar a História. Não fui eu que a escrevi”.

Em 2018, depois de oito anos na Série A (a “segunda divisão” do carnaval carioca), o Império Serrano, escola nove vezes campeã da divisão principal, voltará a desfilar no Grupo Especial, junto com as outras grandes. Até ano passado, comentava-se nos bastidores do samba que quando este retorno ocorresse, o Império finalmente faria uma reedição “Heróis da Liberdade”, depois de já ter feito o mesmo com dois outros famosos enredos (ambos também com grandes sambas): “Aquarela Brasileira” (1964, reeditado em 2004) e “A lenda das sereias e os mistérios do mar” (1976, reeditado em 2009). No entanto, a agremiação acabou optando por fazer um enredo sobre a China.

Não deixaria de ser (tristemente) irônica a reedição, quase cinquenta anos depois, de um desfile exaltando a liberdade, justo no momento em que esta volta a ser seriamente atacada no Brasil, com a ampliação dos mecanismos de exceção no contexto de um novo golpe levado a cabo pelos mesmos setores conservadores. Mas por obra do destino – e por decisão da diretoria do Império -, essa ironia da história não irá acontecer.

Quem sabe em 2019, exatamente cinco décadas após o desfile original e quiçá em outra conjuntura menos desfavorável às forças populares, a tradicional escola de Madureira não decida levar o enredo de 1969 novamente à avenida?  Até lá, há que se por em prática a disposição para a resistência presente nos geniais versos do histórico samba-enredo que o embalou e que foram considerados por Carlos Drummond de Andrade como alguns dos mais belos já escritos em língua portuguesa.

*Historiador e Professor do Instituto de Estudos Estratégicos da Universidade Federal Fluminense – UFF
**Este artigo foi publicado originalmente no “Brasil de Fato – Rio de Janeiro”, em 09 de fevereiro de 2018, com o título “Conheça a história do samba da Império Serrano que desafiou militares em 1969”.

 

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